Palmeiras, 100 anos

26 de agosto de 1914

Palmeiras, 100 anos

POR LUIZ FERNANDO MONCAU*

Cem anos de Palmeiras – Volume II

A página em branco muitas vezes assusta. O que será que preencherá essas linhas? Será um dia de pouca ou muita inspiração? O que será?

Mais assustadora ainda é a página a ser preenchida num dia de tamanha magnitude. São 100 anos de histórias, lutas e glórias. Cem anos de lágrimas derramadas e emoções. Do ódio ao sorriso, do alívio à tensão. Cem anos de amizades que se cultivam sem perceber, de rivalidade, disputas, tragédias e comemorações. Diante de tanto, o que poderia ser uma página em branco, senão algo simples de preencher?

Na verdade, é fácil. Bastaria navegar pelos triunfos e recordar a maior goleada aplicada no rival, no eterno 8×0 de 1933. Ou pelo título Brasileiro de 1994, a única final disputada entre os maiores rivais. Quantas páginas seriam necessárias para descrever o dramático e esperado título Paulista de 93, a derrota por um gol no jogo de ida – com direito a imitação de porco e polêmica – e a volta por cima num sonoro 4×0 cheio de catimba, brigas e expulsões? Em quantos volumes caberia o sentimento que pulsava no peito durante a duríssima disputa nas semifinais da Libertadores de 2000? Como descrever este sentimento e a eliminação do rival pelas mãos de um Santo a bloquear os pés-de-anjo? Como fazer o leitor sentir o que senti, sem fazê-lo entender que 90 minutos podem carregar gerações de memória cultural.

Poderia fazê-lo do jeito simples, e descrever de maneira insossa os fatos de cada uma dessas jornadas. Zinho finalizou de pé direito e a bola tocou a trave antes de entrar. Fácil demais. Um leitor desavisado chegaria a achar exagero ver um palmeirense às lágrimas diante de algo tão corriqueiro.

Não se soubesse que Zinho era canhoto. Nem se soubesse o que cada um de nós passou nos 16 anos anteriores. Não se compreendesse que vestir uma camisa verde não é apenas um ato fútil de busca pelo entretenimento. É muito mais que isso, e a explicação não caberia em infinitas páginas.

Com muitas páginas preenchidas, poderia ignorar as tragédias. As recentes, as antigas, as derrotas doloridas, as viradas inacreditáveis a destruir nossos sonhos. Poderia deixar em branco os capítulos a narrar o coração batendo de raiva e o os dentes rangendo de ódio. Poderia suprimir cada provocação dos rivais, o telefonema provocativo da garota inocente após a mais dolorida derrota e a erupção de uma resposta atravessada (para dizer o mínimo e manter a elegância!). Poderia esquecer cada provocação e insulto após cada doída derrota. Poderia omitir tudo isso. Mas não me esquecerei de nenhum deles, jamais. E prefiro não preencher página alguma sem citar nosso fardo, o peso da derrota e nossos tropeços. Esta nunca seria uma história completa, muito menos digna ou honesta. E nós prezamos muito pela dignidade e honestidade. Vestir uma camisa verde não é apenas um ato fútil de ostentação e glória. É muito mais do que isso. E palavras escritas serão incapazes de explicá-lo.

Poderia agarrar-me ao épico, pois histórias grandiosas e dramáticas não faltam nessas centenárias páginas. Do fim da longa fila às Academias. Das eternas viradas e reviravoltas, seja pelas cabeças de Euller ou de Galeano. Da magia nos pés de tantos jogadores à santidade das mãos de tantos guarda-metas.

Talvez aí esteja parte da identidade verde que nunca se desfaz. Em cada palestrino supõe-se a disposição para a resistência e a reinvenção. Cada coração palmeirense carrega em seu DNA a memória dessa história. Resistência contra a agressão à nossa identidade, reinvenção na mudança de nome. Resistência e reinvenção na camisa azul de Oberdan, em óbvia referência feita à Azzurra naquele fatídico 20 de setembro de 1942, dia em que o “Palestra Itália morreu líder e o Palmeiras nasceu campeão”.

É preciso coragem para resistir. É preciso ousadia para inovar e se reinventar. Não é à toa que o melhor do Palmeiras emerge justamente nas páginas escritas com a maior ousadia. Do Parque Antarctica ao Allianz Parque. Da profissionalização do futebol à primeira experiência de co-gestão com uma empresa privada. Da Arrancada Heroica às Academias.

No dia de hoje, colocamos um ponto final no primeiro centenário de nossa história. Celebramos as lutas e as glórias do passado, as tragédias e as vitórias épicas que nos definem. E diante de nós se apresentam todas as páginas em branco do futuro.

Quem é palestrino não vai se assustar com as incertezas do caminho. Honrar nosso passado é resgatar a ousadia de olhar e andar para frente, juntando todas as forças para resistir qualquer adversidade e escrever o épico.

Parabéns à Sociedade Esportiva Palmeiras e a todos que, como eu, celebram essa história com lágrimas nos olhos. Mas inventar o futuro é nosso destino. E hoje começa o volume II da História do campeão do século passado.

* Luiz Fernando Moncau é palestrino desde 1982. Foi criador do perfil DiretasJáSEP no Facebook e no Twitter, utilizado para pressionar e organizar manifestações pela democratização da política palestrina. Associou-se ao clube em 2004, após a primeira queda, para tentar preencher as páginas em branco dessa linda e centenária história com mais glórias e títulos.

Hino da Sociedade Esportiva Palmeiras:

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