John Lennon, os Beatles e Jesus Cristo

Há 50 anos… dia 4 de março de 1966.

POR FELIPE FIGUEIREDO MELLO*

Já contamos aqui algumas histórias interessantes sobre a trajetória do Beatles: o começo ainda inocente, noites adentro no Cavern Club, em Liverpool. Os primeiros passos no Reino Unido e pela Europa. O início de uma relação absolutamente profunda da banda e dos Fab Four com os Estados Unidos. O frenesi da Beatlemania se alastrando para todos os cantos do globo. A evolução musical e a grande jornada de autoconhecimento de John, Paul, George e Ringo, iniciada em 1965.

A gente parece se esquecer, mas no dia 4 de março de 1966, há cinquenta anos, John Lennon, por exemplo, era apenas um garoto vivendo seus 25 anos. Um garoto que já havia passado pela dureza do abandono paterno na infância e pela morte da mãe na adolescência. Que já havia experimentado drogas, viajado milhas ao redor do planeta, que já havia sido preso. Um garoto protagonista do maior fenômeno cultural do século XX!

Mas, ainda assim, apenas um garoto.

E se 1964 e 1965 haviam sido, tanto para John quanto para os outros três, uma mistura concreta e metafórica de álcool, preludins e maconha, parece que 1966 foi o ano da ressaca! O ano em que a inocência lhes foi arrancada e a vida adulta começava a cobrar seu preço.

E foi neste mesmo 4 de março que John proferiu, talvez, sua frase mais midiática e explosiva dos tempos de Beatles: “Nós somos maiores que Jesus Cristo.”

Naquela época ainda não se sabia se John era ingênuo ou se havia, de fato, veneno em sua língua. O tempo acabou por confirmar que a segunda opção sempre lhe serviu melhor. Mas não sejamos injustos: houve um contexto em que a frase foi dita e, também, um longo período até que se tornasse mesmo uma polêmica!

No dia em questão, foi publicado um artigo no London Evening Standard – foto do post -, assinado por uma jornalista amiga da banda, Maureen Cleave. Trata-se de uma entrevista escrita em formato de artigo descritivo da vida de John no início de 1966. Foi um período de férias da banda e Maureen teve o privilégio de adentrar a casa de Lennon, que vivia em Weybridge, no subúrbio de Londres, junto com Cynthia Powell e Julian. Assim como fez com cada um deles (ver links abaixo).

Nas curtas frases publicadas, ele fala sobre seus carros, sobre uma roupa de gorila que havia comprado, sobre a escola onde Julian iria no próximo ano, sobre a música indiana que lhe fora apresentada por George. Em certo momento, solta:

“O Cristianismo irá acabar. Irá encolher e acabar. Não preciso de argumentos e o tempo me dará a razão. Nós somos mais populares que Jesus agora; eu não sei o que irá embora primeiro – o Rock ou o Cristianismo. Jesus estava certo, mas seus discípulos foram burros e ordinários. Eles deturparam tudo e isso que estragou tudo para mim.”

Nos dias que se seguiram, o artigo teve pouca repercussão. Era apenas mais uma entrevista, mais uma informação sobre um dos Beatles, que certamente estavam estampados nos jornais britânicos em todos os dias dos últimos dois anos. Não era nenhuma novidade, portanto. (Nota do editor: observe como não há destaque para a “polêmica” frase de John na diagramação da entrevista! Fiz questão de realçar na foto…)

Meses depois, a frase (e apenas a frase) cruzou o atlântico e provocou uma turbulência sem precedentes – tal qual eles fizeram em fevereiro de 1964. Impressa em um fanzine adolescente chamada Datebook, foi imediatamente absorvida de forma negativa pela porção cristã mais fundamentalista dos Estados Unidos, em especial nos estados do Sul do país, região conhecida como “Bible Belt”. Durante dias, locutores de rádio reproduziam a frase e incitavam a população a jogar todos os seus pertences com o selo Beatles em grandes montanhas, para que virassem poeira em gigantescas fogueiras.

No calendário, havia mais uma turnê agendada pela Terra do Tio Sam e mais um show no Shea Stadium, em NY. Aquilo tudo começou a tomar um rumo perigoso, inclusive com ameaças de morte por um membro da Ku Klux Klan, seita cristã fundamentalista e racista, que pregava a Bíblia e a supremacia da raça branca.

Não restou alternativa a John: ele ofereceu uma coletiva ao lado dos outros Beatles pedindo desculpas e dizendo que jamais teve a intenção de ferir a fé das pessoas.

O estrago, porém, estava feito. Se antes a Beatlemania era apenas um frenesi de jovens apaixonados pela música e pelo quarteto, agora era um furacão que ameaçava suas próprias vidas. Em uma das entrevistas no Anthology, Ringo conta que, naquela turnê pelos EUA, deixava os pratos de sua bateria o mais inclinados possível, para que funcionasse como escudos à prova de balas.

Naquele 1966, eles decidiram deixar de fazer shows e turnês para sempre.

Mas essa história fica pra outro dia… Porque todo dia é histórico.

* Felipe Figueiredo Mello concorda com John Lennon.

A polêmica relembrada no Anthology:

Fontes e +MAIS:

Wikipedia

– beatlesbible.com

– ultimateclassicrock.com

– beatlesinterviews.org

– observador.pt

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