O discurso de Caetano no Festival Internacional da Canção

Há 45 anos… dia 15 de setembro de 1968.

15set13

POR RODRIGO MELLO *

O ano de 1968 não foi um ano qualquer.  “O ano que não terminou”, como cunhou o jornalista Zuenir Ventura. A arte não foi poupada das muitas paixões em jogo, que levavam a intensas polarizações: era-se “a favor” ou “contra” um artista, como se este e sua arte fossem clubes de futebol.  Na música, os festivais promovidos pela televisão eram o palco principal dessa torcida, e mobilizavam o país.

Naquele ano, na terceira edição do Festival Internacional da Canção, o FIC, da TV Globo, o músico Caetano Veloso participou já sob a alcunha de “tropicalista”, em função do álbum Tropicália ou Panis et Circensis, gravado por ele e outros artistas do recém-criado movimento, em maio do mesmo ano.

Caetano trouxe para o festival “É Proibido Proibir”, uma canção que evocava um dos gritos da juventude que havia virado Paris de cabeça para baixo em maio de 1968, e que o próprio artista já enxergava com o poder de transformar sua apresentação em um happening. A canção se classificou para a final paulista do festival, que foi realizada no teatro TUCA, da PUC-SP.

Nelson Rodrigues, em bela e surpreendente crônica, descreve como Caetano foi recebido pela plateia naquela noite:

“A vaia selvagem com que o receberam já me deu uma certa náusea de ser brasileiro. Dirão os idiotas da objetividade que ele estava de salto alto, plumas, peruca, batom etc. etc. Era um artista. De peruca ou não, era um artista. De plumas, mas artista. De salto alto, mas artista. E foi uma monstruosa vaia (…) Era um concorrente que vinha ali, cantar; simplesmente cantar. Mas os jovens centauros não deixaram”.

A resposta de Caetano foi implacável. Com um discurso ácido e irado, acompanhado pelas distorções das guitarras dos Mutantes, Caetano contra-atacou: “Vocês não estão entendendo nada!”.

Naquele discurso, Caetano, deixou frases de antologia. A mais famosa e profética delas: “Essa é a juventude que diz que quer tomar o poder? Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos”.

Vale a pena recorrer novamente a Nelson Rodrigues para compreender melhor o que foi aquela noite:

“Quis cantar, e esmagaram seu canto (…) Súbito, os brios de Caetano Veloso se eriçaram mais que as cerdas bravas do javali. Ele começou a falar. Era um contra 1500. E um que dizia a sua feroz mensagem nos trajes mais impróprios para o seu rompante. Sim, estava de peruca, plumas, batom, salto alto etc. E disse as verdades que estavam mudas, sim, as verdades que precisavam ser ditas – urgentes, inadiáveis e santas verdades (…) Tivemos, pela fúria de Caetano Veloso, um momento da consciência brasileira”.

O FIC de 1968 terminou com polêmica e vaia à bela canção vencedora, “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque – a plateia preferia a incendiária “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré.

Mas, repetindo o mantra do efemérides, essa história fica pra outro dia… Porque todo dia é histórico.

* Rodrigo Mello, 37 anos, é psicólogo, professor, e acha que “Sabiá” era mesmo a canção mais bonita do festival.

Ouça o discurso de Caetano Veloso:

Fontes:

Livro Verdade Tropical, de Caetano Veloso

Livro A Cabra Vadia, de Nelson Rodrigues

www.tropicalia.com.br (de onde foi tirada a foto que ilustra esse post!)

 

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4 comentários sobre “O discurso de Caetano no Festival Internacional da Canção

  1. Oi, Nat! Primeiro, obrigado pelo contato e pela audiência ao blog!
    Sobre o discurso, a segunda frase (“Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos”) está correta.
    A primeira, “Essa é a juventude que diz que quer tomar o poder?”, está um pouco diferente da original, que é “Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?”. De qualquer forma, pouco altera no significado!
    Agradeço sua mensagem!
    Continue com o efemérides!
    Abraço,
    Fernando.

  2. O correto seria : “Esta é a juventude que diz que quer tomar o poder? Se vocês forem em política como são em estética, estamos fritos”.

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