Balada do mangue

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POR RODRIGO MELLO *

Em 1946, Vinicius de Moraes publica Poemas, Sonetos e Baladas, que contém muitos poemas escritos durante sua passagem pela Inglaterra, para onde foi em 1938. Vinicius ganhou uma bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesa em Oxford. É em Oxford que exercita sua escrita poética sob o regime férreo das formas tradicionais, como o soneto e a balada, já em baixa na época, com a consolidação do modernismo.

Em depoimento dado a Miguel Faria Jr. no documentário “Vinicius”, o crítico Antônio Cândido explica:

“Vinicius de Moraes é um homem apegado à métrica, um homem apegado à rima, um homem apegado às formas poéticas tradicionais, como o soneto, a ode. Portanto é um poeta que está inserido na tradição”.

Porém, o crítico adverte:

“Mas é esse poeta inserido na tradição, exatamente pelos grandes recursos formais e técnicos que tem, quem se aproximou, mais do que nenhum outro, daquilo que os modernistas queriam: a vida cotidiana, a destruição do tema poético nobre, a frase coloquial…”.

“Balada do Mangue”, escrito em Oxford e publicado em 1946, é um exemplo claro do tema mundano – o Mangue, famosa zona de prostituição do Rio de Janeiro – abrigado sob métrica tradicional, e é um dos mais belos poemas de Vinicius.

Antônio Cândido comenta, de maneira definitiva:

“E eu diria que um poeta que é autor de um poema como ‘Balada do Mangue’ só pode ser considerado um grande poeta.”

Vinicius de Moraes, um grande poeta.

Balada do mangue

Balada do mangue

Pobres flores gonocócicas
Que à noite despetalais
As vossas pétalas tóxicas!
Pobre de vós, pensas, murchas
Orquídeas do despudor
Não sois Lœlia tenebrosa
Nem sois Vanda tricolor:
Sois frágeis, desmilingüidas
Dálias cortadas ao pé
Corolas descoloridas
Enclausuradas sem fé,
Ah, jovens putas das tardes
O que vos aconteceu
Para assim envenenardes
O pólen que Deus vos deu?
No entanto crispais sorrisos
Em vossas jaulas acesas
Mostrando o rubro das presas
Falando coisas do amor
E às vezes cantais uivando
Como cadelas à lua
Que em vossa rua sem nome
Rola perdida no céu…
Mas que brilho mau de estrela
Em vossos olhos lilases
Percebo quando, falazes,
Fazeis rapazes entrar!
Sinto então nos vossos sexos
Formarem-se imediatos
Os venenos putrefatos
Com que os envenenar
Ó misericordiosas!
Glabras, glúteas caftinas
Embebidas em jasmim
Jogando cantos felizes
Em perspectivas sem fim
Cantais, maternais hienas
Canções de caftinizar
Gordas polacas serenas
Sempre prestes a chorar.
Como sofreis, que silêncio
Não deve gritar em vós
Esse imenso, atroz silêncio
Dos santos e dos heróis!
E o contraponto de vozes
Com que ampliais o mistério
Como é semelhante às luzes
Votivas de um cemitério
Esculpido de memórias!
Pobres, trágicas mulheres
Multidimensionais
Ponto morto de choferes
Passadiço de navais!
Louras mulatas francesas
Vestidas de carnaval:
Viveis a festa das flores
Pelo convés dessas ruas
Ancoradas no canal?
Para onde irão vossos cantos
Para onde irá vossa nau?
Por que vos deixais imóveis
Alérgicas sensitivas
Nos jardins desse hospital
Etílico e heliotrópico?
Por que não vos trucidais
Ó inimigas? ou bem
Não ateais fogo às vestes
E vos lançais como tochas
Contra esses homens de nada
Nessa terra de ninguém!

* Rodrigo Mello, 37 anos, é psicólogo, professor, e acha Vinicius de Moraes um grande poeta.

Leitura do poema, por Ricardo Blat, no documentário “Vinicius”:

Fontes:

– Biografia Vinicius de Moraes – O poeta da paixão, de José Castello

– Documentário “Vinicius”

– Livro Nova Antologia Poética

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Um comentário sobre “Balada do mangue

  1. Vinícius de Morais, em minha opinião, é o maior poeta brasileiro, pois, como ninguém, soube aproximar a poesia do grande público. Sua poesia traduz o cotidiano para uma linguagem erudita e, ao mesmo tempo, torna-a inteligível ao povo de pouca cultura escolar. É moderno e tradicional ao mesmo tempo em sua formação e produção artística. Sua poesia nasceu cheia de musicalidade, daí sua transformação em música popular. Qual poeta chegou perto disso? Drummond o elogio por sua presença no meio popular através de sua poesia e música.

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