Chico Science, 50 anos

13 de março de 1966

Chico Science, 50 anos

A revolução antropofágica de Chico Science

POR MARCELO PINHEIRO*

Neste domingo (13), o cantor e compositor pernambucano Chico Science completaria 50 anos. De forma abrupta, aos 30, sua vida foi abreviada em um acidente automobilístico ocorrido em Recife, na noite de 2 de fevereiro de 1997, um domingo de Carnaval.

Trinta anos de vida breve, mas de enorme significância para a cultura do País. Dois dias após sua partida, na terça-feira de Carnaval, Chico apresentar-se-ia no Pancada de Ganzá, ao lado de dois ícones das tradições regionais do Nordeste do Brasil, o ator e músico Antônio Nóbrega, criador do bloco, e o escritor Ariano Suassuna. Para além da folia, a iniciativa tinha como fim altivo enaltecer a riqueza multicultural do Carnaval pernambucano, em meio a hegemonia baiana de axés frívolos de grupos como É o Tchan, Gera Samba e Harmonia do Samba. Mesmo com o plano interrompido pela tragédia, Chico já havia inscrito seu nome na galeria de imortais da cultura brasileira, ao lado dos parceiros da Nação Zumbi, com dois álbuns consagrados pela crítica: Da Lama ao Caos e Afrociberdelia.

Tive o prazer de conhecê-lo em meados de 1996, durante um show da banda Sonic Disruptor, de amigos meus, no extinto Café Columbia. Em uma breve estada por São Paulo, Chico estava lá, solitário na plateia, exercitando um de seus melhores predicados, a abertura para o novo. Entusiasmado com o show, ao final da apresentação ele foi ao encontro dos rapazes de Guarulhos, ansioso para levar de volta a Recife algum registro da banda em estúdio. Recebeu das mãos de um deles – não lembro quem, a memória falha – uma fita K7, que continha um EP recém-lançado pelo grupo.

Tivemos um breve bate-papo em que, entre outros assuntos, Chico falou de sua paixão pelo grupo paulistano Fellini, reverenciado pela Nação Zumbi em Afrociberdelia, com uma releitura de “Criança de Domingo”. Naquela noite, por sua simplicidade autêntica, pelo respeito e entusiasmo com que lidava com seus pares de ofício, passei a admirar ainda mais o patrono do movimento Manguebeat.

Aos 24 anos, como diria aquela velha canção do Ira!, eu já estava um tanto farto do rock n’ roll, uma vez que, desde os 14 fazia do gênero minha grande obsessão. Adolescente, descobri o punk-rock e, pouco depois, fui seduzido pelo experimentalismo “faça você mesmo” do pós-punk. Confesso, na segunda metade dos anos 1980, tinha pouco entusiasmo com o rock brasileiro praticado desde o surgimento da Blitz. Considerava a maioria das bandas excessivamente tributárias às tradições britânicas e norte-americanas. Algumas delas não expressavam o menor constrangimento em roubar melodias e harmonias de grupos como Echo & The Bunnymen, Siouxsie & The Banshees, The Police, Joy Division, Gang of Four e The Clash.

Num gesto de total negação de minha identidade brasileira, replicado por muitos jovens como eu, ingressei nos anos 1990 participando de bandas como Sonic Disruptor, que, além do nome anglicista, também apostavam em composições com letras em inglês. Em 1996, mais maduro, tinha consciência de que tamanha presunção era uma tolice descabida. Foi neste período que comecei a pesquisar a música popular produzida no Brasil desde o advento da bossa nova. Com este novo olhar, claro, identifiquei nos dois primeiros álbuns da Nação Zumbi uma disposição exemplar para resgatar o espírito inventivo e antropofágico imerso na produção brasileira desde o lançamento de Chega de Saudade, a obra-prima inaugural de João Gilberto, lançada em 1959.

Em Da Lama ao Caos e Afrociberdelia, um Norte criativo amplo, potente e diverso nos redimia da condição de vira-latas após quase 20 anos de achatamento identitário promovido pelo velho imperialismo cultural. Nos dois petardos permeados pelas provocações vocais de Chico, um MC matuto, escolado na astúcia da embolada, cabia de tudo: maracatu e trash metal; coco e dub jamaicano; baião e psicodelismo; frevo e hardcore.

Em maio de 1966, em um depoimento, hoje histórico, publicado na Revista Civilização Brasileira, Caetano Veloso defendeu a necessidade de retomar a linha evolutiva da antropofagia proposta pela bossa nova, gênero que nasceu de experimentações sobre as harmonias do samba, amalgamadas à modernidade do cool jazz e do be bop. Para além da retórica, artistas como Caetano, Gil, Tom Zé, Gal Costa e Jards Macalé levaram essa proposição às últimas consequências com o tropicalismo, sub-gênero da música popular que deu a ela novo fôlego e que possibilitou aos artistas que surgiram nos anos 1970 um ambiente mais arejado e inventivo. Basta ouvir trabalhos dos anos 1970 de artistas nordestinos como Novos Baianos, Fagner, Zé Ramalho, Arnaud Rodrigues, Ave Sangria, e ações de coletivos como o Movimento Armorial, em Pernambuco, e o Movimento Massafeira Livre, no Ceará, para concluir que a sugestão de Caetano foi acatada, com eficácia.

Depois de mais de dez anos de ditadura de um rock brasileiro oitentista que dava as costas para o próprio País, o que Chico e Nação Zumbi fizeram, em um átimo de brilho intenso que durou menos de três anos, foi recuperar o ímpeto renovador expresso nas intenções do artista baiano. Chico nos livrou do reincidente complexo de vira-latas sem abrir mão de falar de mazelas seculares como a miséria dos rincões do Nordeste denunciadas, há décadas, por intelectuais como o geógrafo Josué de Castro, que cunhou a expressão homem-caranguejo para falar da subsistência nos mangues. Isso não é pouco. Por essas e outras, Chico faz tanta falta. Não há dúvidas, maduro, aos 50 anos, estaria em plena atividade, “desorganizando para organizar”.

Mas deixemos o lamento de lado. O legado de Francisco de Assis França Caldas Brandão está presente não só nas produções musicais que surgiram depois dele – cito, como exemplo, artistas como Russo Passapusso, B Negão & Seletores de Frequência, Saulo e Unidade, Karina Buhr, contemporânea de Chico – como também na brasilidade altiva de festas espalhadas pelo País, como a paulistana Calefação Tropicaos, criada por Pita Uchôa, não por acaso, pernambucano, onde os frequentadores passam horas a dançar cocos, cirandas, forrós e baiões. Algo inimaginável no Brasil dos anos 1980 e 90. Salve Chico!

* Marcelo Pinheiro considera-se jornalista desde que, aos 14 anos, do próprio bolso, começou a produzir fanzines xerocados sobre a cena independente de rock paulistano do começo dos anos 1990. Desde 1997 atua na imprensa cultural. Atualmente, é editor de Cultura da revista Brasileiros.

Documentário “15 anos sem Chico Science”, da MTV:                                

+MAIS:

Wikipédia

musica.uol.com.br

– jb.com.br

– cartacapital.com.br

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– pernambuco.com

– infograficos.estadao.com.br

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