David Bowie lança o álbum Station to Station

Há 40 anos… dia 23 de janeiro de 1976.

David Bowie lança o álbum Station to Station

POR DANIEL SETTI*

Sétimo na ordem cronológica dos doze espetaculares álbuns lançados por David Bowie entre 1971 e 1983, Station to Station, cujo lançamento completa 40 anos hoje, é também o equador sônico daquela dúzia de anos insuperável do Camaleão. Vindo de um dos mais bem sucedidos experimentos de sua carreira até então – a guinada do glam rock apocalíptico de Diamond Dogs ao soul de branco de Young Americans -, o multifacetado cantor deu novo salto ao manter o apetite dançante do trabalho anterior, mas saciá-lo com um banquete totalmente inédito. A partir de Station to Station, Bowie embarcaria em uma viagem rumo a um som futurista próprio e extremamente original, que serviria de beabá para nove entre dez artistas durante o resto da década.

As gravações ocorreram durante os últimos meses de 1975, no Cherokke Studios de Los Angeles, sua casa desde a feitura do disco anterior. No toca-fitas do carro de Bowie ainda ressonavam os lamentos negros de Aretha Franklin – como é possível ver no bom documentário “Cracked Actor”, de Alan Yentob para a BBC -, mas sua antena já captava a protoeletrônica experimental de Kraftwerk e outras revolucionárias bandas alemãs. Ou melhor, quem passava por esta nova transformação era seu novo alter ego, The Thin White Duke, um nobre pós-moderno decadente, com olheiras de doente terminal e cabelo laranja – visual remanescente do alienígena que Bowie acabara de interpretar no filme “The Men Who Fell to Earth”, de Nicolas Roig. A capa do disco, aliás, traz cena desta película.

Mantendo a banda-base que criara com grande acerto para Young Americans, uma gangue de funkeiros na qual despontavam o guitarrista Carlos Alomar e o baterista Dennis Davis, além do noise-guitarrista Earl Slick, o Duke Branco e Magro criou um híbrido entre o suingue do predecessor e a vanguarda musical germânica que já admirava, deixando um pé no Harlem e esticando o outro de volta à sua Europa. Algo que ele faria fisicamente em seguida, ao fincar raízes em Berlim e criar os míticos álbuns de aura pré-oitentista Low e Heroes (1977) e Lodger (1979).

Tratava-se, portanto, de uma migração estética parecida com a ansiada pelo personagem, “um duque europeu que vive na América e quer voltar à Europa”, em palavras de seu criador registradas em outro documentário da BBC, “Five Years”, uma verdadeira aula sobre a mutabilidade gloriosa do astro naqueles anos (disponível no Netflix). “A grande influência neste álbum foi o trabalho do Kraftwerk e o novo som alemão; tentei utilizar um pouco de aleatoriedade”, explica Bowie no mesmo filme, fazendo alusão aos seus heróis da época e ao processo de composição das canções, no qual os músicos tocavam as partes sem poder antever o resultado final.

O primeiro single foi “Golden Years”, um funk elegante que ele afirma ter escrito para Elvis, e que esteve entre as cinco primeiras posições das paradas nos dois lados do Atlântico. Os demais temas eram mais longos – são apenas seis faixas – densos, enigmáticos e experimentais. Uma maravilha de álbum, da longa introdução com feedbacks de guitarra da épica canção-título à melancolia de crooner cósmico da última, “Wild is the Wind” – composição de Dimitri Tiomkin e Ned Washington que Bowie registrou após conhecer Nina Simone -, passando pela pedrada funk cocainômana “Stay” e “TVC 15”, uma palhinha de antecipação de sua trilogia de Berlim.

Station to Station também é o disco que rendeu mais folclore extramusical à já extensa e variada mitologia bowieana. O próprio autor não esconde que simplesmente não se lembra da gravação, tamanho o estrago psíquico que sua dieta de cocaína, pimenta e leite (?) no período vinha lhe causando. A fissura não apenas lhe rendeu a aparência inimitável de zumbi extraterrestre; também lhe deixou em um estado semipermanente de paranoia, estimulado por delírios relacionados ao Nazismo, uma obsessão pelo ocultismo de Aleister Crowley e o incômodo de viver e trabalhar em Los Angeles, uma cidade que ele depois, em entrevista de 1979, admitiria odiar.  Foi também um dos poucos álbuns de Bowie não produzidos por seu braço direito Tony Visconti, mas sim pelo próprio, em parceira com Harry Maslin.

* O jornalista, músico e DJ paulistano Daniel Setti tem 37 anos e mora em Barcelona desde 2006. Publicou 100 listas musicais pitorescas no blog lavemomaladalista.blogspot.com.br, tem mais 82 inéditas prontas e outras 456 em construção.

A faixa-título “Station to Station”:

Fontes e +MAIS:

Wikipedia

Wikipédia

– davidbowie.com

– bowiegoldenyears.com

– rollingstone.com

– theguardian.com

– allmusic.com

– namiradogroove.com.br

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