Morre o escritor Italo Calvino

Há 30 anos… dia 19 de setembro de 1985.

Morre o escritor Italo Calvino

POR NETA MELLO*

“Agilulfo arrasta um morto e pensa: ó morto, você tem aquilo que jamais tive nem terei: esta carcaça. Ou seja, você não tem: você é esta carcaça, isto é, aquilo que às vezes, nos momentos de melancolia, me surpreendo a invejar nos homens existentes. Grande coisa! Posso bem considerar-me privilegiado, eu posso passar sem ela e fazer de tudo. Tudo – se entende – aquilo que me parece mais importante; e muitas coisas consigo fazer melhor do que aqueles que existem, sem os seus habituais defeitos de grosseria, aproximação, incoerência, fedor. É verdade que quem existe põe sempre alguma coisa de seu no que faz, um sinal particular, que não conseguirei jamais imprimir…”

Uma armadura extremamente bem cuidada do exército de Carlos Magno, rei dos francos do século IX. Um dos melhores guerreiros, o personagem Agilulfo, dá nome ao livro de Italo Calvino, O Cavaleiro Inexistente. Uma figura sem corpo, o cavaleiro perfeito que obedece cegamente às ordens de cima, mas que não tem amigos, não consegue se relacionar com ninguém. Não pode amar uma mulher. Não pode festejar a vitória de uma batalha nas estalagens como todos os guerreiros. Está sempre a postos. E vazio. A forma que Calvino encontrou para falar dos conflitos e imperfeições humanas.

O escritor consegue cativar leitores do mundo todo com narrativas como essa. Escrevendo sobre épocas diferentes, personagens reais romanceados como Carlos Magno. No livro As Cidades Invisíveis, Marco Polo descreve ao imperador Kublai Khan cada cidade que visitou em suas viagens pelo mundo.

Nascido em Cuba, em 1923, Italo Calvino mudou-se na infância com a família para a Itália, onde se tornou um dos maiores escritores em língua italiana pós 2a Guerra. Foi membro da resistência contra o fascismo, fez parte do Partido Comunista, estudou Literatura em Turim, trabalhou no jornal comunista L’Unitá. 

Calvino morreu há trinta anos. Deixou incompleto o livro Seis Propostas Para o Próximo Milênio. Um pensador à frente de seu tempo, ele nos legou apenas cinco propostas, parte de uma dissertação: leveza – rapidez – exatidão – visibilidade – multiplicidade.

O autor fala da rapidez usando como exemplo a história da princesa Sherazade. Dá ênfase no êxito de um escritor que consegue manter o desejo do leitor ou do ouvinte – no caso de narrativas orais. O exemplo de Sherazade é usado por Calvino para mostrar que a narração das Mil e Uma Noites exige duas operações – da continuidade e da descontinuidade. Um ritmo preciso que consegue capturar o tempo.

O interessante das propostas de Calvino é que ele procura interligá-las sem dar mais importância para uma em especial. Todas são importantes.

Sobre a visibilidade, ele diz que os homens têm a capacidade de imaginar para depois escrever, narrar e essa capacidade é carregada de um significado especial para cada um – podemos imaginar a mesma cena de um romance, por exemplo, de formas muito diferentes.

“…quem somos nós, que é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis”.

* Neta Mello, 60 anos, é historiadora e escritora. Tem quatro livros publicados e escreve no Blog da Neta.

Animação brasileira baseada em Cidades Invisíveis:

Fontes e +MAIS:

Wikipédia

Wikipedia

– educacao.uol.com.br

– companhiadasletras.com.br

– newyorker.com

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