O último concerto de Jimi Hendrix

Há 45 anos… dia 6 de setembro de 1970.

O último concerto de Jimi Hendrix

POR WALTERSON SARDENBERG Sº*

Faz 45 anos. Teve muita lama, muita gente e confusão na última vez em que Jimi Hendrix se apresentou em público oficialmente, em 6 de setembro de 1970. Tal como ocorrera, por sinal, havia um ano, em Woodstock. Mas o Festival da ilha de Fehmarn (nome por completo: Open Air, Love and Peace Festival in Fehmarn), ao largo da costa da Alemanha, deve ser comparado a outro evento do gênero, ocorrido nove meses antes, no autódromo de Altamont, na Califórnia. Aquele mesmo considerado o  anúncio do fim da contracultura, golpeada sem defesa pela violência mais estúpida.

Em Altamont, ocorreram quatro mortes: duas em um acidente automobilístico, uma por afogamento e a mais notória, por assassinato. Foi assim: durante a apresentação dos Rolling Stones, em 6 de dezembro de 1969, um dos nazi-motoqueiros do grupo Hells Angels, que fazia a segurança do festival, matou a facadas um espectador negro, Meredith Hunter, diante do olhar perplexo de Mick Jagger. Hunter esboçara erguer um revólver.

Na Ilha de Fehmarn, é bem verdade, não aconteceram mortes. Mas o mau presságio tornava ainda mais densa a tempestade sobre a ilha. A começar pela escolha dos motoqueiros do Bloody Devils, uma versão germânica dos Hells Angels, para fazer a segurança. Algo como pedir aos Gaviões da Fiel que cantem a sério o “Hino do Palmeiras” com a mão direita estendida no peito.

Outro mau agouro de Fehmarn foi a morte do líder da banda americana Canned Heat, ocorrida dois dias antes da apresentação do grupo. Alan Wilson tinha 27 anos. Tomou uma dose excessiva de barbitúricos — há quem avente uma óbvia possibilidade de suicídio. De qualquer maneira, desde as primeiras horas, o astral, para usar uma palavra da época, na ilha alemã estava péssimo, apesar da ótima lista de bandas do primeiro dos três dias, contando aí o Renaissance, o Cactus, o Colosseum e o Taste, do guitarrista Rory Gallagher — que arrasara uma semana antes no Festival da Ilha de Wight, na Inglaterra, onde Miles Davis e o próprio Hendrix fizeram concertos mornos.

As razões do baixo astral eram muitas. A chuva não dava trégua. Havia problemas acústicos. O som não chegava a toda a plateia. Além disso, vários artistas hesitavam em se apresentar, temendo por choques elétricos. Tinham razão. (Menos de dois anos depois, o guitarrista Les Harvey, do grupo Stone the Crows, morreria eletrocutado num show ao ar livre em dia de chuva). Para piorar, pedaços de lonas eram disputados a croques na testa pelo público para abrigar-se do mau tempo. Nada menos hippie. Enquanto isso, os Bloody Devils honravam o nome, baixando o sarrafo em quem não lhes era do agrado. E o lamaçal ia aumentando, aumentando…

A programação do segundo dia foi ainda melhor. Teve o Airforce do baterista Ginger Baker, o Mungo Jerry, o Canned Heat, o Sly & The Family Stone e, ainda, o Faces, de Rod Stewart, Ron Wood, Ronnie Lane & Companhia. O show de Hendrix estava marcado para aquela noite. Mas o guitarrista preferiu adiar a apresentação para o dia seguinte. O clima, de fato, não ajudava. Ventos fortes varriam o palco. Temendo pela reação da plateia, os organizadores do festival só anunciaram tarde da noite que Hendrix não se apresentaria naquela madrugada, mas ao meio-dia. Houve vaias. Urros.

Hendrix estava inquieto desde o final do ano anterior. Desfeito o grupo com que se apresentara em Woodstock, montara um power trio só de músicos negros, com Billy Cox (a quem conhecera quando serviu ao Exército – na divisão de paraquedistas!) no baixo e Buddy Miles (ex-Eletric Flag) na bateria. Era a Band of Gypsys — ou a Banda dos Ciganos. Fala-se que um conjunto só de negros era uma ideia levada ao guitarrista com ênfase guerrilheira pelo grupo revolucionário Panteras Negras. Hendrix jamais confirmou. O que se sabe é que estava animado quando recebeu o convite do empresário Billy Graham para quatro apresentações na dobrada de 1969 para 1970. Dois deles em 31 de dezembro e outros dois em 1º de janeiro. Sempre no teatro Fillmore East, em Nova York. O alento evaporou, porém, depois dos shows.

Hendrix não gostara do resultado. Pior: se comprometera a lançar um disco ao vivo com o melhor daquelas noites. Devia um álbum para Ed Chalpin, da Capitol Records, eis o motivo. Hoje, o disco Band of Gypsys é considerado um clássico, com sua mescla de rock pesado com soul, e uma pegada funky, de muito balanço. Fala-se em uma antevisão do som que rolaria anos depois.

Na época, contudo, Hendrix ficou cabreiro. O LP saiu no Brasil com o selo Polydor, da Phonogram. Tornou-se uma raridade, sobretudo em virtude da capa. Foi usada aqui a mesma arte da primeira edição britânica do álbum. É a chamada “puppet cover” — ou “capa dos fantoches”. Nela, em vez de Buddy Miles e Billy Cox, aparecem os bonecos de Brian Jones (dos Stones, que havia morrido no ano anterior), Bob Dylan e do radialista britânico John Peel – um sujeito obscuro para quem atravessasse o Canal da Mancha. Além do próprio Hendrix, claro, que decerto ficaria fulo da vida ao saber que as sobras daquelas gravações seriam lançadas em um CD duplo, em 1999, com o nome Band of Gypsys live at the Fillmore East. Se soubesse, teria jogado tudo no lixo da névoa púrpura.

Seu grande projeto naquele ano de 1970 eram as gravações de seu segundo álbum-duplo — o primeiro foi Eletric Ladyland, que chegou às lojas dois anos antes. Segundo seus planos, o lançamento teria um nome para lá de hippie: First days of the new rising sun (Primeiros dias do novo sol nascente). Hendrix arrumaria tempo naquele ano para participar de uma faixa do primeiro disco solo de Stephen Stills e de outra em False Start, o sexto álbum do Love — o único grupo psicodélico (e dos bons!) comandado por um artista negro, Arthur Lee.

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Mas essas participações especiais não passavam de camaradagem. Hendrix era gente fina — embora desconfiado, quase sempre à procura de segundas intenções. O seu objetivo principal — na realidade, uma obsessão — era mesmo First days. Em 24 de agosto, entrou no seu estúdio, o Eletric Lady, em Nova York, para rodar, com a assistência do engenheiro de som Eddie Kramer, aquela que seria a sua derradeira gravação. Foram feitos alguns ajustes na faixa “Dolly Dagger. A seu pedido, Billy Cox encorpou as linhas de baixo usando um efeito fuzz.

O baixista continuara ao lado de Hendrix. Mas a Band of Gypsys se extinguira, vítima das frustrações e do nomadismo que trazia no nome. O baterista Buddy Miles, que também cantava e compunha — e, aliás, comanda a faixa “Them Changes” no disco do grupo — havia pulado fora. Tinha o projeto de uma carreira individual. Para o seu lugar, Hendrix trouxera um parceiro desde seus primeiros dias londrinos: o britânico Mitch Mitchell, que tocara na primeira banda formada na Inglaterra pelo guitarrista, o Experience.

Para o show da Ilha Ferhmarn, ao lado de Billy Cox e Mitch Mitchell, iniciado às 12h56m, Hendrix selecionara apenas três faixas de First days (veja o setlist completo ao final deste texto): “Hey Baby (New Rising Sun)”, “Ezy Rider” e “Room full of mirrors”. As outras onze estavam entre as mais conhecidas do seu repertório.

Àquela altura, o festival virara um caos. Pedaços de madeira do palco e portas dos banheiros haviam sido arrancados e transformados em fogueiras, para espantar o frio. O público mostrava-se pra lá de irascível. Vaiou a demora dos roadies de Hendrix na montagem do palco. Muito. Vaiou até mesmo quando Hendrix entrou no palco. O guitarrista irritou-se: “Boo boo… eu não dou a mínima para quem vaia”.

Pouco a pouco, porém, a magia da música formidável de Hendrix foi mudando os sentimentos — como mudaria, em apenas três anos, o panorama da guitarra no planeta Terra. O público passou a aplaudir. Extasiado. Para melhorar ainda mais, o sol deu as caras. Hendrix fechou com “Purple Haze” e “Voodo Child (Slight return)”. E se mandou da ilha o mais rápido que pôde. Sabia que aquele êxtase não duraria na lama.

Depois de Hendrix, outros cinco artistas se apresentaram. Todos alemães. A barra pesou tanto que o grupo britânico Ten Years After, de Alvin  Lee, a outra grande atração do dia, resolveu pedir o boné e se arrancar do lamaçal, antes de pisar no palco.

A última banda a se apresentar, a Rote Scherben, viu-se obrigada a interromper o espetáculo por uma questão de sobrevivência. Passada a chuva, alguém fez uma fogueira pertinho do palco. O fogo ameaçava entrar como coadjuvante e roubar o papel principal. Depois disso, até os contêineres dos organizadores do festival foram virados. Um fim inglório.

Ao contrário de Woodstock e de Altamont, que viraram filmes de cinema, sobraram raras imagens do festival da Ilha de Fehmarn. Algumas em Super 8 mm. Discos piratas como aquele concerto de Hendrix foram lançados às pencas, mas com qualidade técnica muito precária de gravação. Até que um dos promotores do festival encontrou, de maneira fortuita, as fitas que mandara gravar em um Revox, escondido de Hendrix, a partir de dois microfones de palco. O disco, Jimi Hendrix Experience live at the Isle of Fehmarn Festival, saiu pela gravadora Dagger em 13 de dezembro de 2005, com os trovões domados pela guitarra. Ou seja, 35 anos depois. Dá para comprar pela Amazon.

Oito anos antes, First days of the New rising Sun aportou, enfim, nas lojas, como supostamente Hendrix gostaria de vê-lo lançado. As 17 faixas já haviam saído, aqui e ali, em compilações. Eddie Kramer ajudou a montá-las segundo a concepção original do autor. É o que afirma ainda hoje, aos 73 anos.

James Marshall Hendrix morreu em Londres, aos 27 anos, em 18 de setembro de 1970. Doze dias depois de sua última apresentação. Há quem conte que, entre uma data e outra, fez uma jam com Eric Burdon e a banda War na Ronnie Scott’s Jazz Club, uma casa noturna ainda na ativa no bairro do Soho, em Londres. É bem possível. Hendrix adorava Burdon, a noite londrina e as jam sessions. Sobretudo aquelas em clubes pequenos. Seja como for, sua última apresentação formal — se é que se pode usar esta palavra em relação a Hendrix — foi em Fehmarn. O clima pesado da ilha alemã revelou-se o prenúncio do fim do maior guitarrista que este planeta viu e ouviu — e, possivelmente, ouvirá.

Setlist do último concerto de Hendrix

‘Killing Floor’
‘Spanish Castle Magic’
‘All Along the Watchtower’
‘Hey Joe’
‘Hey Baby (New Rising Sun)’
‘Message to Love’
‘Foxy Lady’
‘Red House’
‘Ezy Ryder’
‘Freedom’
‘Room Full of Mirrors’
‘Purple Haze’
‘Voodoo Child (Slight Return)’

Walterson Sardenberg Sº é jornalista desde 1978. Nasceu em um dia histórico: 6 de julho de 1957, em que Paul McCartney e John Lennon de conheceram.

Imagens do último concerto de Hendrix:

Fontes e +MAIS:

– ultimateclassicrock.com

– fehmarnfestival1970.com

– spiegel.de

– Wikipedia

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4 comentários sobre “O último concerto de Jimi Hendrix

  1. Então, apenas por ser negro, o cara pode causar arruaça, sacar uma arma, e ainda sair como santinho mártir. Seu texto é tendencioso e raso.

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