Billie Holiday, 100 anos

7 de abril de 1915

Billie Holiday, 100 anos

POR DANIEL SETTI*

“Não suporto cantar a mesma canção da mesma forma por duas noites seguidas, nem com o intervalo de dois ou dez anos. Se você consegue fazê-lo, então não se trata de música”.

Ao filosofar um pouco sobre o cantar, no comovente livro Lady Sings the Blues – A Autobiografia Dilacerada de uma Lenda do Jazz (1956, Ed. Jorge Zahar, escrito com o jornalista William Dufty), Billie Holiday, cujo nascimento completa 100 anos exatamente hoje, também dá a pista dos motivos pelos quais é considerada uma das maiores vozes do século passado.

Afinal, este período histórico musical, que absorveu em sua essência a lição jazzística de que o improviso deve servir à arte, poderia ter poucos ícones mais representativos do que ela. Fraseando propositalmente como uma instrumentista de sopro, Billie repousa confortavelmente no olimpo do gênero. Mais do que exibir virtuosismo vocal, Lady Day – apelido que ganhou do chapa saxofonista Lester Young, a quem chamava de Pres (“Presidente”) – traçou corações de gerações pelo canto econômico, de timbre cálido, timing ao mesmo tempo preciso e conscientemente preguiçoso (“atrás” do tempo, diriam os mais técnicos) e, sobretudo, tradutor da dor do blues.

Não por acaso, foi uma espécie de herdeira da diva blueseira definitiva, Bessie Smith, de quem emprestou a malícia e a fibra, devolvendo ao mundo seu irretocável lamento de sofisticação descomplicada, com o qual se apoderava implacavelmente das composições de outros como se fossem de sua autoria.

Se o mito do artista torturado um dia valeu para alguém, trata-se dela, nascida Eleanora Fagan Gough, em Baltimore, em um típico broken home negro americano pré-luta pelos direitos civis, de mãe adolescente e pai músico fujão. Ainda na infância, acumulou um estoque de experiências da pesada que inclui estupro, prostituição e temporada em um reformatório que, para os crentes na teoria de que o sofrimento moldaria seu estilo, fariam com que ela chegasse à adolescência pós-graduada. De fato, há relatos de que, ainda na aurora da década de 1930, Billie já abduzia boêmios novaiorquinos com seu ronronar suingado.

O primeiro salto na carreira veio graças ao produtor John Hammond, então também um novato, que lhe apresentou a Benny Goodman em 1933. Nos anos seguintes, ela atuaria ao lado deste e de vários outros célebres bandleaders, como Artie Shaw, Duke Ellington, Fletcher Henderson e Count Basie. A aura intimista de suas interpretações, porém, ganharia o complemento perfeito em formações mais enxutas, como quintetos ou sextetos, mais aptos a muquifos esfumaçados do que salões de baile bem iluminados.

Mesmo constantemente envolvida em confusões com parceiros sentimentais e atormentada pelas drogas – especialmente a heroína, que também lhe renderia oito meses de cadeia -, Billie teve tempo e fôlego para romper barreiras raciais, ao ocupar o microfone até então reservado a cantoras brancas; trabalhou com o Midas da produção jazzística Norman Granz; e registrou centenas de gravações, sempre tendo ao lado craques, de Coleman Hawkins a Oscar Peterson, passando por Ben Webster e Roy Eldridge. Compositora bissexta, brilhou ao escrever a clássica “God Bless the Child”, mas maior ainda foi o que fez com obras alheias, notavelmente “Strange Fruit” (de um professor, Abel Meeropol), na qual um corpo negro enforcado pendurado em uma árvore é comparado a uma “estranha fruta”. Heroinômana até o final da vida, morreu por problemas de coração e fígado em 17 de julho de 1959, aos 44 anos.

* O jornalista, músico e DJ paulistano Daniel Setti tem 36 anos e mora em Barcelona desde 2006. Publicou 100 listas musicais pitorescas no blog http://lavemomaladalista.blogspot.com.br, tem mais 82 inéditas prontas e outras 456 em construção.

Billie Holiday canta “Strange Fruit”:

Fontes:

allmusic.com

+MAIS:

billieholiday.com

biography.com

nytimes.com

newyorker.com

cultura.estadao.com.br

folha.uol.com.br

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