Morre Andy Kaufman (ou não!)

Há 30 anos… dia 16 de maio de 1984.

Morre Andy Kaufman (ou não!)

POR FELIPE SANT’ANGELO*

Em um de seus números de maior sucesso, Andy Kaufman encarnava um estrangeiro, que teria vindo de uma ilha (inventada por ele) no Mar Cáspio. Um papel cômico tradicional: o tonto. Falava mal inglês, fazia mal as coisas. Era ridículo. Nesse número específico, ele dizia para o público que faria imitações. Archie Bunker (personagem de famosa sitcom norte-americana) e Richard Nixon (ex-presidente dos EUA) eram alguns dos nomes que ele citava. Mas, na hora de imitar, ele era propositalmente pífio. E, por ser pífio, era engraçado. Quando o público pensava que só o que veria seria um tonto sendo tonto, ele anunciava uma imitação de Elvis Presley. Só que essa imitação era perfeita. Ele dançava, cantava e rebolava como Elvis. (segundo o próprio Elvis, sua imitação favorita). E isso quebrava a expectativa do público e fazia de seu número um sucesso.

Esse estrangeiro que Andy Kaufman encarnava tornou-se um personagem escrito especialmente para ele na sitcom Taxi, que foi ao ar de 1978 a 1983 nos Estados Unidos. O personagem era Latka e tornaria Andy famoso.

O problema é que Andy não era o tipo de comediante que se encaixava naquele humor de “claque”, típico de uma sitcom. Ele, aliás, não gostava de ser chamado de comediante. Considerava-se um “song-and-dance-man” (“homem-que-canta-e-dança”, numa tradução direta). De fato, ele cantava e dançava sempre que podia.

Mas, o fato é que Andy ia além. Não queria simplesmente fazer rir. Seu desejo era quebrar a expectativa, tirar o público do lugar comum, da zona de conforto. E isso tornava seu humor tão sofisticado e amado por alguns, quanto odiado por muitos. (Nelson Rodrigues disse uma vez: “O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda”. Andy parecia compartilhar da mesma opinião. Parecia não fazer a menor questão de ser amado.)

Na prática, isso tomava forma com situações em que a fronteira entre a realidade e a ficção nunca ficava perfeitamente clara. Fosse pela antipatia grosseira e hilária do cantor Tony Clifton (mais uma de suas personas), fosse por ele mesmo, com a fase em que passou a desafiar mulheres em ringues de luta livre, o fato é que Andy era imprevisível. Não estava lá apenas para que as pessoas rissem dele. Ele também queria rir das pessoas. E com certeza ria.

(Na humilde opinião deste que escreve, o que parecia estar por trás do comportamento de Andy era uma espécie de recado: “somos todos ridículos. Eu, Elvis, vocês, todos nós. Eu acho engraçado. E vocês?”)

Tão radical era Andy que quando anunciou que estava com um tipo raro de câncer no pulmão, todos imaginaram se tratar de mais uma de suas “pegadinhas”. E até hoje, trinta anos depois de sua morte, há quem diga que ele está vivo (como Elvis!). Aqui cabe outra opinião do autor: acho que ele está morto. Mas fico feliz que até na morte ele não tenha permitido (talvez involuntariamente) o lugar comum. No caso, não o lugar comum, confortável, do riso. Mas o da comoção e do sentimentalismo.

P.S.: Há inúmeros exemplos, números e situações hilariantes que podem ser vistas num filme genial de Milos Forman: “O Mundo de Andy” (“Man on The Moon”), no qual Andy é interpretado brilhantemente por Jim Carrey. No YouTube há também um bom material original do artista. Vale a pesquisa.

* Felipe Sant’Angelo é escritor, dramaturgo e roteirista.

Abaixo, uma edição de alguns dos números mais célebres:

Fontes:

Wikipedia

IMDb

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