José Saramago ganha Nobel de Literatura

Há 15 anos… dia 8 de outubro de 1998.

8out13

POR NETA MELLO*

“Tivemos de esperar durante quatro séculos, em que os escritores portugueses – de qualquer país de língua portuguesa – trabalharam muito bem e alguns deles, com certeza, teriam merecido esse prêmio mais do que eu”.

Foram as palavras de José Saramago ao receber o primeiro e único Prêmio Nobel de Literatura da língua portuguesa. Reportagem do Estadão do dia 9 de outubro de 1998, assinada por Carlos Haag, conta o clima de Copa do Mundo em Portugal, na expectativa pela vitória do escritor.

Tudo vale a pena/Se a alma não é pequena.

Os conhecidos versos de Mar Português, de Fernando Pessoa, cabem muito bem à trajetória do Nobel de 1998.

José Saramago começou a carreira perto dos 60 anos. Foi profícuo. Incensado por muitos, criticado pelos que não conseguiam compreender seus textos sem pontuação nem maiúsculas, seus personagens estranhos, muitas vezes pessimistas, como um fado lisboeta.

Em As Pequenas Memórias, ele nos conta da importância de saber ler numa família inteira analfabeta, declara seu amor à vila onde nasceu, aos avós que se abraçavam às árvores.

No final da vida, isolado nas Canárias, cercado pelo amor da mulher Pilar, José montou um blog.

Outros Cadernos de Saramago nos leva a conhecer um outro lado do escritor.

Em seu primeiro post, escreve Palavras para uma cidade, a Lisboa onde viveu e trabalhou muitos anos. Uma declaração de amor que poucos conseguem escrever.

“Mexendo nuns quantos papeis que já perderam a frescura da novidade, encontrei um artigo sobre Lisboa escrito há uns quantos anos, e, não me envergonho de confessá-lo, emocionei-me. Talvez porque não se trate realmente de um artigo, mas de uma carta de amor, de amor a Lisboa. Decidi então partilhá-la com os meus leitores e amigos tornando-a outra vez pública, agora na página infinita de internet e com ela inaugurar o meu espaço pessoal neste blog.

… Quando começou Lisboa a ser Lisboa de facto e de direito? Pelo menos alguns anos tiveram de passar antes que o novo nome nascesse, tal como para que os conquistadores Galegos começassem a tornar-se Portugueses.

Estas miudezas históricas interessam pouco, dir-se-á, mas a mim interessar-me-ia muito, não só saber, mas ver, no exacto sentido da palavra, como veio mudando Lisboa desde aqueles dias. Se o cinema já existisse então, se os velhos cronistas fossem operadores de câmara, se as mil e uma mudanças por que Lisboa passou ao longo dos séculos tivessem sido registradas, poderíamos ver essa Lisboa de oito séculos crescer e mover-se como um ser vivo, como aquelas flores que a televisão nos mostra, abrindo-se em poucos segundos, desde o botão ainda fechado ao esplendor final das formas e das cores. Creio que amaria a essa Lisboa por cima de todas as cousas.

Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. Podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar no mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo. Esse filme de Lisboa, comprimindo o tempo e expandindo o espaço, seria a memória perfeita da cidade.

O que sabemos dos lugares é coincidirmos com eles durante um certo tempo no espaço que são. O lugar estava ali, a pessoa apareceu, depois a pessoa partiu, o lugar continuou, o lugar tinha feito a pessoa, a pessoa havia transformado o lugar. Quando tive de recriar o espaço e o tempo de Lisboa onde Ricardo Reis viveria o seu último ano, sabia de antemão que não seriam coincidentes as duas noções do tempo e do lugar: a do adolescente tímido que fui, fechado na sua condição social, e a do poeta lúcido e genial que frequentava as mais altas regiões do espírito.

A minha Lisboa foi sempre a dos bairros pobres, e quando, muito mais tarde, as circunstâncias me levaram a viver noutros ambientes, a memória que preferi guardar foi a da Lisboa dos meus primeiros anos, a Lisboa da gente de pouco ter e de muito sentir, ainda rural nos costumes e na compreensão do mundo (…)

Pensemos antes que do sangue derramado por um e outro lados está feito o sangue que levamos nas veias, nós, os herdeiros desta cidade, filhos de cristãos e de mouros, de pretos e de judeus, de índios e de amarelos, enfim, de todas as raças e credos que se dizem bons, de todos os credos e raças a que chamam maus (…)

Lisboa tem-se transformado nos últimos anos, foi capaz de acordar na consciência dos seus cidadãos o renovo de forças que a arrancou do marasmo em que caíra. Em nome da modernização levantam-se muros de betão sobre as pedras antigas, transtornam-se os perfis das colinas, alteram-se os panoramas, modificam-se os ângulos de visão. Mas o espírito de Lisboa sobrevive, e é o espírito que faz eternas as cidades. Arrebatado por aquele louco amor e aquele divino entusiasmo que moram nos poetas, Camões escreveu um dia, falando de Lisboa: “…cidade que facilmente das outras é princesa”. Perdoemos-lhe o exagero. Basta que Lisboa seja simplesmente o que deve ser: culta, moderna, limpa, organizada – sem perder nada da sua alma. E se todas estas bondades acabarem por fazer dela uma rainha, pois que o seja. Na república que nós somos serão sempre bem-vindas rainhas assim.

José Saramago

Consagrado, o escritor português partiria em junho de 2010, aos 87 anos.

Mas essa história fica pra outro dia… Porque todo dia é histórico.

* Neta Mello, 59 anos, é historiadora e escritora. Tem quatro livros publicados e escreve no Blog da Neta

Veja o anúncio do Prêmio Nobel de Literatura para José Saramago:

Fontes:

nobelprize.org

Acervo Estadão

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3 comentários sobre “José Saramago ganha Nobel de Literatura

  1. Reverencio a José Saramago por vencedor do prêmio Nobel de Literatura … mais do que justo … Grande escritor! Meus aplausos.

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