Começa o primeiro Giro d’Italia

Há 105 anos… dia 13 de maio de 1909.

13mai14

POR LEANDRO BITTAR*

No dia 13 de maio de 1909, um grupo de 127 ciclistas iniciou um giro de 2.448 km pela Itália. Pouco antes das 3h da manhã, o pelotão saiu de Milão com destino a Bolonha, naquela que seria a primeira e mais longa (397 km) etapa da inaugural Volta da Itália. Uma multidão ocupou as ruas naquela noite e é assim até os dias de hoje. O povo italiano se apaixonou por “Il Grande Giro” desde o primeiro instante.

Tamanho público e escuridão da madrugada resultou no óbvio: sem ao menos dois quilômetros percorridos, uma queda massiva envolveu boa parte do pelotão. Ninguém sabe ao certo, mas uma das teorias é que uma criança fugiu do controle dos pais e entrou no circuito.

Apesar disso, o pelotão seguiu em frente. Na caravana, oito carros: quatro para as equipes, dois da organização e dois dos jornalistas. Quase quatorze horas depois, já no entardecer do dia 13, um grupo de doze ciclistas apontou ao centro de Bolonha debaixo de uma chuva torrencial. Exatamente! Desde o primeiro dia, o Giro d’Italia foi moldado com requintes épicos. Hoje, a chuva (e os tombos!) podem ser vistos como uma menção honrosa ao passado.

O ciclista local Dario Beni foi o mais rápido entre os doze ponteiros e tornou-se o primeiro vencedor de uma etapa do Giro. Luigi Ganna, que venceu a competição de 1909, foi o quarto no sprint em Bolonha. Bicampeão do Tour, o francês Petit-Breton, um dos cinco estrangeiros na prova, cruzou em um heróico 27º lugar, com uma clavícula quebrada, originada por uma queda enquanto devorava um frango. Sem descer da bicicleta, claro.

Assim começou o Giro d’Italia, uma das mais importantes provas ciclísticas do mundo. Porém, para que os ciclistas tomassem as estradas, foi preciso um longo e arquitetado esforço de três importantes nomes: Tulio Morgagni, editor da Gazzetta dello Sport; Armando Cougnet, editor de ciclismo do jornal; e Emilio Camillo Costamagna, dono da publicação. E isso remete a outra data: 7 de agosto de 1908. O dia em que os três anunciaram nas páginas da Gazzetta a realização do Giro d’Italia.

Inspirados no sucesso do Tour de France e no efeito positivo que causou nas vendas do jornal francês organizador, o L’Auto, os três sabiam que os eventos esportivos eram a engrenagem para aumentar o público-leitor. Já realizavam outros eventos desde 1896, incluindo provas de bicicleta que existem até hoje, como a Milão-São Remo (1907) e a Volta da Lombardia (1905), mas o Giro era um passo ousado. Dois dias antes, Morgagni foi informado que o jornal concorrente, o Corriere Della Sera, planejava realizar um evento semelhante. O trio se reuniu e Armando Cougnet, que havia trabalhado na cobertura do Tour de 1906 e 1907, foi categórico: era impossível realizar o evento com o jornal falido.

Surgiu, então, a figura do contador Primo Bongrani. Com muito mais disposição do que dinheiro, ele passou um mês batendo de porta em porta em busca de investidores. Enquanto isso, a Gazzetta tentava convencer o mercado da seriedade da suas intenções. Eles já haviam fracassado em alguns eventos, como uma corrida de carro, e precisavam provar que tinham fôlego para algo tão grandioso. Além de Bolonha, a prova passaria por Chieti, Nápoles, Roma, Florença, Gênova e Turim, até retornar para Milão, no trajeto mais curto da história do evento.

O trabalho de Bongrani deu resultados positivos e a prova tinha arrecadado um grande valor. O campeão do Giro, Luigi Ganna, por exemplo, recebeu mais do que um bom engenheiro ou um advogado conseguiriam juntar com um ano de salário na época. O último colocado foi premiado com mais dinheiro do que o salário anual do diretor da prova, Armando Cougnet. Hoje, como ilustração, o campeão do Giro d’Italia recebe 90 mil euros da organização, a RCS, um grupo que detém, entre outros, o jornal Gazzetta dello Sport. Historicamente, esse montante é dividido com cada um dos integrantes da equipe, ciclistas e estafe, como prova de que este não é um esporte individual. O Tour segue como o irmão mais rico e paga 450 mil euros ao ciclista que chega com a camisa amarela em Paris.

Aliás, as duas provas tem inúmeras similaridades, referências e até rivalidades. Ao longo destes 105 anos, o Tour se manteve como mais grandioso e decisivo em todos os âmbitos do ciclismo, desde a publicidade ao impacto na carreira de um ciclista. Porém, o Giro tem um grande charme e um cenário indiscutivelmente deslumbrante. Poucos desprezaram a relevância dos dois eventos e acharam que era preciso escolher um só. Mesmo que ganhar os dois no mesmo ano seja tarefa rara, o belga Eddy Merckx, o espanhol Miguel Induráin, o italiano Fausto Coppi e o francês Bernard Hinault são alguns dos nomes que brilharam nas duas provas e confirmam a grandeza global do esporte.

Na Itália, o domínio é italiano, principalmente, na primeira metade do século. Constante Girardengo, Alfredo Binda, Gino Bartali, Marco Pantani e muitos outros ajudaram a manter acesa a paixão italiana – e mundial – pelo ciclismo. São 68 conquistas italianas. Os belgas, impulsionados pelos cinco títulos de Merckx, são os estrangeiros com mais títulos: sete. Histórias memoráveis, como o esforço de Bartali, com sua bicicleta, para ajudar a salvar judeus durante a II Guerra. Outras efemérides, podemos dizer. Mesmo que você não entenda ou acompanhe o ciclismo, assista ao vídeo abaixo. Não vai restar dúvidas da grandiosidade do Giro e o efeito daquela largada, 105 anos atrás.

* Leandro Bittar é jornalista e apaixonado pelo ciclismo.

+MAIS:

– Há inúmeras fontes para conhecer mais sobre a história do Giro d’Italia. Se você quiser a melhor, clique aqui.

– A competição de 2014 começou na última sexta-feira, dia 9/5, e só termina no dia 1º/6. Desde o ano passado, a ESPN Brasil transmite o Giro ao vivo.

gazzetta.it

Wikipedia

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