New Order lança Substance

Há 30 anos… dia 16 de agosto de 1987.

POR RODRIGO MELLO E TONY MARCHESE*

A capa branca, elegante, tinha apenas os dizeres: “NEW ORDER”;  “SUBSTANCE”;  “1987”. Dentro, dois vinis envelopados em suas próprias capas; cada lado do vinil continha apenas três longas faixas, muitas delas com mais de seis minutos de duração. Quase todo mundo que conhecíamos tinha o disco duplo, ou queria tê-lo. É verdade que nosso mundo era pequeno – a classe média-alta paulistana –, mas o tempo revelou a importância daquele lançamento para todo o universo pop e eletrônico.

Substance é uma compilação dos 12-inch singles da banda – vinis de alta qualidade sonora, contendo versões mais longas, pensadas pela mítica gravadora inglesa Factory Records para serem tocadas por DJs nos clubes. Sendo uma compilação, não continha novidades (o superhit “Blue Monday”, de 1983, já detinha o recorde de 12-inch single mais vendido de todos os tempos, chegando a 800 mil cópias), mas foi com Substance que a banda de Manchester se tornou onipresente.

Difícil encontrar unanimidade para definir o gênero musical daquele som. Rock, pós-punk, synth-pop, alternate-rock, alternate-dance, new wave. Fato é que o New Order era umbilicalmente ligado à importante banda pós-punk Joy Division – faltava apenas o vocalista e compositor Ian Curtis, que se suicidou em 1980 – e outro fato é que esse cordão umbilical foi inteiramente cortado com a morte de Curtis. Sem ele, a banda seguiu outros caminhos. Bernard Sumner (vocais e guitarra), Stephen Morris (bateria) e Peter Hook (baixo) permaneceram juntos para formar o New Order, com a adição da tecladista Gillian Gilbert.

Ainda crianças em 1980, o pós-punk foi um movimento cujo auge não chegamos a acompanhar de perto, apesar de termos sido impactados por sua melancolia urbana, impregnada em grupos ingleses posteriores como The Cure, The Smiths e Echo and the Bunnymen, que ouvíamos tocar entre os colegas mais velhos do colégio, e dos quais gostávamos muito. Mas o som que nos “pegou” mesmo foi New Order.

E é difícil falar dessa época sem falar de “Blue Monday”. Em Substance, ela aparece no lado B do primeiro disco, e sinalizava a verdadeira virada que o New Order representava em relação ao Joy Division. Era mesmo a nova ordem. Havia outras bandas tentando trazer os sintetizadores para o rock, emulando o som setentista de Giorgio Moroder e Kraftwerk, mas o New Order foi a primeira banda a conseguir fazer isso de maneira equilibrada e melódica – em entrevista à Folha, em 2003, Tony Wilson, dono da Factory Records, conta que o Pet Shop Boy Neil Tennant, arrasado, teria se trancado por três semanas em casa ao ouvir “Blue Monday” em uma loja. Aquele som estava no ar, mas foi o New Order quem conseguiu primeiro. O bate-estaca duro, os sintetizadores entrando sucessivamente em diversos layers, o baixo melódico e grave de Peter Hook, a voz estranha e taciturna de Sumners: tudo soava diferente e novo.

Se “Blue Monday” é a estrela do disco 1 (sem esquecer das belas “Ceremony” e “Temptation”, que vinham dos momentos finais do Joy Divison e foram repaginadas para abrirem este álbum), é difícil escolher qual o maior petardo do disco 2, como se a banda tivesse explodido “Blue Monday” em várias canções: “Perfect Kiss” e seu baixo e teclados lisérgicos, continha o DNA do que viria a ser o trance dos anos 2000;  “Subculture” era música pra se ouvir em transe no fone de ouvido – afinal os anos 80 foram a era do walkman! “Bizarre Love Triangle”, que veio a se tornar exaustivamente presente nos casamentos de toda uma geração (ou mais de uma geração!), é linda, melódica, os sintetizadores jogando com o som estéreo da pista de dança; “True Faith”, inédita até Substance, fecha o disco com sua sonoridade meio sacra, melancólica.

New Order era música de nerd, era música de skatista, era música de playboy, era música de baladeiro. Uma banda de rock que tocava instrumentos eletrônicos como se fossem convencionais. Será que os super-DJs dos anos 90 e 00, como Tiesto, Armin van Buuren e Paul Oakenfold, dariam conta de produzir “na unha” o som genial do baixo de Peter Hook, ou dos teclados de Gillian Gilbert ?

A explosão da house music nos anos 80 e 90, e da música eletrônica em geral, deve muito ao New Order. Nós também devemos.

P.S.: Em 1997, jovens adultos, estávamos na faculdade e vivíamos a explosão da música eletrônica. Exatos dez anos depois do lançamento do disco, num after hours na praia, fomos ouvir Substance, e ele soou fresco para nós, como se estivéssemos ouvindo uma novidade. Foi muito bom perceber que o som da nossa adolescência tinha virado um clássico.

*Rodrigo Mello, 41, é psicólogo, professor, e lembra muito bem do dia em que seu pai trouxe pra casa o disco novo do New Order.

*Tony Marchese, 43, é profissional da área de marketing, e se tornou admirador da música eletrônica depois que ouviu pela primeira vez o recém-lançado Substance na casa de seus primos mais velhos.

Rodrigo e Tony são dois grandes amigos que se reuniram para uma nova audição do velho vinil de Substance, numa noite de muita cerveja, conversa e celebração da boa música.

Disco 1:

Disco 2:

Clipe de “Perfect Kiss”, dirigido por Jonathan Demme:

Fontes e +MAIS:

– Wikipedia

– Wikipédia

– nationalpubliclibrary.org

– allmusic.com

– Acervo Folha

– theguardian.com

– bbc.co.uk

– rollingstone.com

– post-punk.com

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2 comentários sobre “New Order lança Substance

  1. 🙂 Que felicidade chegar nesse post logo após colocar minhas mãos em um LP Substance. Ele tá aqui agora tocando em casa. Em 2017 ainda parece novo em folha. Acho que não tem data de validade.

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