Morre Catê, ponta-direita dos anos 1990

Há 5 anos… dia 27 de dezembro de 2011.

Morre Catê, campeão mundial pelo São Paulo

POR PEDRO DE LUNA*

O gaúcho Marco Antônio Lemos Tozzi não atingiu o estrelato sendo chamado de Marco Tozzi, Marquinho Gaúcho ou nenhuma dessas alcunhas que a mesmice do futebol atual certamente lhe obrigaria a adotar. Para ser rigorosamente fiel à sua biografia, ele jamais atingiu de fato o estrelato, mas se posicionou sempre no limiar entre uma promissora coadjuvação e os tão sonhados holofotes. Estávamos nos anos 1990 quando ele despontou para o futebol: Catê, diminutivo de “categoria”, atributo que o atrevido ponta-direita esbanjava desde cedo pelos relvados dos pampas, para terror dos pobres laterais-esquerdos da região.

Vindo do modesto Guarany de Cruz Alta, sua cidade natal, Catê passou pela base do Grêmio e, aos 18 anos, fez com que o São Paulo pagasse US$ 30 mil em seu passe. Era uma bela aposta do time de Telê Santana, que enfileirava títulos no período e queria garantir seu futuro. Habilidosíssimo, veloz e bastante inteligente, o jogador fez parte do elenco da Seleção Brasileira sub-20 que conquistou o Sul-Americano, em 1992, e o Mundial, em 1993, ao lado de outras figuras como Adriano Gerlin – que viveria altos e baixos no próprio São Paulo -, o colega de clube Pereira, o goleiro Dida, o artilheiro Jardel e o sempre estressado Argel.

No Tricolor, sofreu com a pesada concorrência de nomes como Raí, Cafu, Elivélton, Juninho e Leonardo e jamais se firmou como titular, o que não impediu que se eternizasse na memória do torcedor, que sempre nutriu grande carinho por seu mais famoso “reserva de luxo”. Um jogador cuja inventividade expressada em dribles rápidos e ousados lhe fazia lembrar os tempos mais românticos do futebol. Em 1994, valorizado, Catê foi por empréstimo de 8 meses ao Cruzeiro, que disputaria a Libertadores.

Na Toca da Raposa, chegou badalado e com status de titular no 4-3-3 do treinador Nelinho. Neste esquema, formava o trio ofensivo ao lado de Roberto Gaúcho e de um tal Ronaldo, que mais tarde seria apelidado de “Fenômeno”. Após apenas 5 jogos (e nenhuma derrota), porém, Nelinho foi surpreendentemente substituído pelo veterano Ênio Andrade, que preferia o tradicional 4-4-2. Assim, o ponta Catê foi sacado da equipe que seria campeã mineira de maneira invicta. Na Libertadores, o Cruzeiro (que também tinha Toninho Cerezo) parou nas oitavas-de-final, sucumbindo aos chilenos do Unión Española – do famoso José Luis Sierra, que em seguida seria contratado com pompas pelo São Paulo. Na última partida, um 0x0 no Mineirão, Catê foi titular e saiu aplaudido pelas arquibancadas, reconhecido como o melhor em campo, apesar do placar murcho e da eliminação. A ironia do destino é que, caso avançassem, os cruzeirenses encarariam os bicampeões do São Paulo, detentores do passe de Catê.

Em agosto, após 16 jogos e 2 gols, o ponta-direita retornou ao Tricolor, que não quis abrir mão de seu cobiçado jogador e se recusou a negociá-lo em definitivo com a Raposa. Ele então foi escalado para reforçar o lendário Expressinho, o time B são-paulino comandado por um jovem Muricy Ramalho que disputou a Copa Conmebol de 94 enquanto a equipe principal se dedicava a outras competições do lotadíssimo calendário brasileiro. Em meio a nomes ainda verdes como Rogério Ceni, Bordon, Caio e Denílson, complementados pela experiência de Vítor, Ronaldo Luís e Juninho, estava Catê. Aquele time semiamador, de que pouco se esperava, foi eliminando seus adversários no mata-mata, um a um: Grêmio, Sporting Crystal (PER), Corinthians, todos jogando com suas equipes principais. Não conseguiam fazer frente ao escrete são-paulino que reunia a base campeã da Copa São Paulo de 1993 e vice em 1994.

Entre 1992 e 1997, somando idas e vindas, Catê fez 136 jogos e 23 gols com a camisa tricolor. Três deles, porém, foram os que realmente entraram para a história. Na noite de 14 de dezembro de 1994, sem qualquer trocadilho, os cerca de 5 mil tricolores que compareceram ao Sacrossanto Morumbi viram Catê comer a bola na final da Conmebol. De virada, o São Paulo fez incríveis 6×1 sobre o tradicionalíssimo Peñarol (URU). Catê fez três belos tentos e, como um ponta-direita das antigas, construiu a jogada de mais um, de bicicleta, de Toninho (o irmão caçula de Sidney, ponta dos Menudos do Morumbi nos anos 1980). A goleada foi tão imponente que nem mesmo os 3×0 feitos pelos uruguaios no duelo de volta, no lendário Estádio Centenário, em Montevidéu, foram capazes de tirar a taça do Expressinho.

Para a temporada de 1995, parecia que um futuro brilhante se desenhava para o lépido driblador. O São Paulo passava por momento de reestruturação, com a saída de nomes como Cafu, Juninho e Caio. Era o espaço perfeito para que Catê explodisse finalmente, aos 21 anos. Não foi o que aconteceu. O jogador não conseguiu emendar uma boa sequência e falhou em agarrar sua grande chance, sofrendo também com a instabilidade da equipe que vivia ali os estertores da Era Telê. No ano seguinte, apareceu um improvável empréstimo ao Universidad Católica (CHI), que, contra todas as expectativas, representaria o ponto mais alto de sua carreira. Na equipe chilena treinada por Fernando Carvallo, Catê se redescobriu. No 4-4-2, virou lateral-direito, e dos mais brilhantes.

Em La Franja, o antigo ponta encontrou alguns ídolos da torcida local, como Mario Lepe e Ricardo Lunari, que fizeram parte do esquadrão da Católica vice-campeã da Libertadores de 1993, massacrado na final pelo grande São Paulo no qual Catê era reserva. Em terras chilenas, como já tinha virado praxe na sua curta carreira, virou xodó dos torcedores, amuados pela apreensão que o jejum de 10 anos sem títulos nacionais lhes trazia. E então, após uma brilhante campanha no Apertura 97, a fila maldita finalmente podia terminar.

Aquela temporada foi a primeira em que a Federação Chilena decidiu adotar o formato com torneios semestrais (Apertura e Clausura), em vez de um único em que todos se enfrentavam em turno e returno pelo ano inteiro. Assim, a Católica chegou à decisão para encarar o Colo Colo, que tinha campanha idêntica, somando impressionantes 11 vitórias, 4 empates e zero derrota. Para apimentar ainda mais o confronto, esta foi a primeira vez na história que os arquirrivais decidiram um torneio, No jogo de ida, no Monumental, os Caciques venceram por 1×0, deixando a hinchada católica a viver um drama. O hiato de taças nacionais prosseguiria?

Com Catê em campo, a resposta era óbvia: de jeito nenhum! Com o lendário Estádio Nacional de Chile, em Ñuñoa, completamente abarrotado, o que se viu foi uma aula de futebol do agora lateral-direito brasileiro. Foi o camisa 17 gaúcho quem deu os passes para os três gols da vitória dos Cruzados e ainda por cima salvou uma bola quase em cima da linha. O placar de 3×0 permitiu que os Franjas tirassem o grito de campeones da garganta e fez com que o ex-ponta entrasse para a galeria de heróis da história da Católica, sendo lembrado até hoje pelos fanáticos torcedores.

Após breve retorno ao São Paulo, era chegada a hora de rumar para a Europa. O destino era Gênova, mais precisamente a Sampdoria, que já não tinha mais as estrelas do início da década, como Toninho Cerezo, Roberto Mancini, Gianluca Vialli, Attilio Lombardo e Gianluca Pagliuca. Visando a temporada 1998/99, os planos eram muito mais modestos, e não se sonhava com título. Para substituir o astro Juan Sebastián Verón, negociado com o trilhardário Parma, o jovem treinador Luciano Spaletti apostava suas fichas em outro titular da Argentina quadrifinalista da Copa do Mundo daquele verão: o meia Ariel “El Burrito” Ortega, recém-trazido por 23 milhões de liras (cerca de 8 milhões de euros, uma quantia deveras considerável para a época), seria o condutor daquele limitado elenco na Serie A.

E as coisas não poderiam ter se desenrolado de pior maneira para Catê, que manteve sua sortuda camisa 17, mas voltou a ser apenas um reserva de luxo e até hoje lembrado pelos tifosi dorianos mais por suas supostas incursões etílicas ao lado dos argentinos Ortega e Gastón Cordoba pelos bares de Bogliasco e Varazze do que pelos dotes futebolísticos – que nunca lhe faltaram. Em terrível temporada, o brasileiro disputou apenas 15 partidas, só duas como titular, marcando um único tento. Se a relação com os torcedores blucerchiatti já não era tranquila antes, tornou-se quase insustentável quando Catê perdeu um gol feito no San Siro, diante do Milan, na 31ª rodada. O jogo estava empatado em 2×2 e sua equipe tinha um homem a menos. Nos acréscimos, os rossoneri ainda fizeram o gol da vitória, que complicou ainda mais a situação da Samp na Serie A. Ao fim da temporada, veio a confirmação da tragédia do rebaixamento e Catê viveu um inferno, caindo em desgraça com a massa.

Em 99, após disputar apenas duas partidas da Série B pela agremiação emiliana, Catê retornou ao Brasil em baixa, acertando com o Flamengo. Em uma curta passagem de apenas 4 meses no primeiro semestre de 2000, disputou 8 jogos (3 como titular), sem marcar gols, antes de ser dispensado. Da Gávea, após período sem clube, Catê acertou com o New England Revolution, dos EUA, para a temporada 2001. Aos 27 anos, era esta a confirmação de que a decadência precoce havia chegado para encurtar carreira outrora tão promissora. E assim, de bicos em bicos sem brilho algum, o ponta passou por XV de Novembro (RS), Glória de Vacaria (RS), Maracaibo (VEN), Palestino (CHI), Remo (PA), Esportivo de Bento Gonçalves (RS) e Brusque (SC) até pendurar melancolicamente as chuteiras em 2008, aos 34 anos.

No mesmo ano, Catê ingressou na vida de técnico, tendo breves experiências no Itinga (MA) e no amador Nova Prata (RS). Questionado por um jornalista se não considerava um retrocesso para um campeão do mundo assumir uma equipe de uma divisão amadora, Catê tinha resposta na ponta da língua: “O Mestre Telê sempre dizia: um passo atrás, se bem feito, significa dois à frente”.

Na manhã de 27 de dezembro de 2011, na altura do km 131 da Rodovia Sinval Guazzelli, em Ipê (RS), Catê encontrou adversário que não conseguiu driblar. Por volta das 10h da manhã, o ex-jogador bateu seu Uno Mille de frente com um caminhão e morreu. Cerca de duas semanas antes, havia participado de um jogo em São Paulo, em homenagem aos 5 anos do falecimento de Telê Santana, seu principal mentor. O ex-goleiro Zetti, que também esteve presente no amistoso e reviu o amigo, lembrou, ainda inconformado com o acidente fatal: “Tínhamos uma preocupação muito grande com ele, quase como com um irmão mais novo, já que tínhamos 8 anos de diferença. Estou chocado, cara”. Nada, porém, apagará os momentos de brilho que tiveram sua representação máxima nas duas mágicas atuações nas finais de 1994 e 1997.

Os torcedores do São Paulo e da Universidad Católica jamais se esquecerão: Catê representou a categoria dos pontas dos anos 1990 como poucos.

* Pedro De Luna, 28, é publicitário, atual responsável pelo blog “Ronaldão foi maior que Ronaldinho”, dirigido ao torcedor do São Paulo no portal Globo Esporte.com e tem tenras memórias da infância, quando seu time tinha só jogadores com nomes e apelidos simpáticos, como Catê, Cafu, Telê, Raí, Muller, Palhinha e Zetti.

Golaço contra a Lazio, pelo São Paulo:

Fontes e +MAIS:

– Wikipédia

– saopaulofc.net

– Acervo Estadão

– globoesporte.globo.com

– esporte.uol.com.br

– espn.uol.com.br

– terceirotempo.bol.uol.com.br

– genoasamp.com

– cruzados.cl

– wp.clicrbs.com.br

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