Jimi Hendrix termina de compor “Purple Haze”

Há 50 anos… dia 26 de dezembro de 1966.

Jimi Hendrix escreve a letra de "Purple Haze"

POR WALTERSON SARDENBERG Sº*

Vou ali, beijo o céu e volto

A história do rock está lotada de empresários/produtores picaretas. Alguns não passavam de autores de textos em contracapas. Ou nem isso.  Eram só fanfarrões anunciando a atração nos palcos. Não foi este o caso do sagaz Chas Chandler, o músico britânico — ex-baixista do grupo Animals — que viu Jimi Hendrix tocando no Café Wha?, em Nova York, no ano de 1966, entusiasmou-se e decidiu levá-lo para Londres para lançá-lo para apreciação das grandes plateias. Chandler era muito antenado. Sabia que Hendrix tinha tudo para se transformar em sucesso internacional. Mas, ora essa, não custava nada ajudar na embalagem. Why not? Entre outros toques, foi Chandler quem trocou o nome de Jimmy para Jimi — ficava mais “cool”. Foi ele quem batizou seu recém-formado grupo de Experience, escolheu os figurinos, eriçou os cabelos da figura e forçou a barra para que o guitarrista gravasse “Hey Joe” no primeiro compacto-simples. Tinha na cabeça o projeto de um power trio comandado por um músico de uma nova era, que levasse o rock às últimas consequências.

Chandler também insistiu com Jimi para que transformasse em canção aquele riff que o ouvira tocar, displicentemente, no estúdio. Era o esboço de “Purple Haze”. Jimi não deu muita trela. Achava que daquele mato não saía rock. Chadler teve de insistir. E assim, no dia 26 de dezembro, nos camarins do club londrino Upper Cut, Jimi finalmente concluiu a letra da música que, até então, não passava de um arremedo. Botou o nome de “Purple Haze – Jesus Saves”, na primeira versão. Logo tirou a referência a Cristo. Seria procurar encrenca de bobeira.

Faz exatamente 50 anos.

“Purple Haze”, em seus impactantes 2 minutos e 23 segundos, tornou-se o segundo compacto-simples do Jimi Hendrix Experience. Em 2005, foi classificada em primeiro lugar entre as “100 Melhores Faixas com Guitarra” pela revista Q. Já a Rolling Stone a considerou a 17ª na sua lista das “500 Melhores Canções de Todos os Tempos”. Nada mau para um riff-brincadeira, que o guitarrista tocava no estúdio antes de realmente começar a trabalhar. “Purple Haze” tem as marcas profundas de Jimi Hendrix, reconhecíveis já ao primeiro acorde: a base rítmica blueseira, o riff pesado, os solos faiscantes de guitarra, o pleno domínio de novos efeitos eletrônicos, a bateria solta e jazzística, a voz quente e encorpada, a letra viajandona.

A letra, por sinal, tornou-se, ao longo dos anos, motivo para diversas polêmicas. A maior delas: segundo muita gente boa, Jimi fazia uma apologia às drogas com aquela história de “névoa púrpura no cérebro”. Parecia algo estranho mesmo. Uma evidente alusão às viagens lisérgicas. Ainda mais numa época em que corria por Londres um tabletinho de LSD na cor púrpura. Jimi estaria dando a maior bandeira.

Ele sempre descartou qualquer alusão às drogas na letra de “Purple Haze”. Ficava fulo da vida quando faziam esse vínculo entre uma coisa e outra. Não porque fosse contra as drogas — pelo contrário, como bem sabemos. Mas porque não era essa sua intenção ao escrevê-la. (Como também não era, lembremos, a de Lennon ao conceber “Lucy in the Sky with Diamonds”.) Sim, há uma cannabis de fama internacional chamada Purple Haze, originária da Colômbia. Mas esta, como bem o sabem filólogos de todas as procedências, ganhou o nome por causa da canção — e não o contrário.

Jimi Hendrix era leitor de ficção científica. A inspiração para “Purple Haze” veio de um conto do gênero, “Night of Light – Day of Dreams”, da lavra do americano Philip José Farmer (1918-2009). A história foi publicada pela primeira vez em 1957, na revista “Fantasy and Science Fiction”. Mas Jimi a conheceu na reedição daquele ano de 1966. Ele leu o conto, que tratava de um mortal raio púrpura, antes de dormir. Os meandros dos sonhos trataram de revertê-lo na névoa púrpura.

Houve também quem entendesse que “Purple Haze” tinha uma queda homoerótica. Os entendidos que fizeram essa distinção ouviram errado. Jimi canta “Excuse me, while I kiss the sky” (“Só um momento, enquanto eu beijo o céu”), mas, para alguns, soou como “Excuse me, while I kiss this guy” (“Só um momento, enquanto eu beijo este cara”). De pura farra, em várias versões ao vivo, Jimi trocou o “the sky” por “this guy”. Frank Zappa, outro gozador, canta, só de sacanagem, “while I kiss this guy” em sua versão de “Purple Haze” gravada em 1988.

Jimi precisou de duas sessões para gravar a canção. A primeira, em 11 de janeiro de 1967, no estúdio londrino DeLane Lea, teve Dave Siddle como engenheiro de som. Estavam na sala de gravação dois novos amigos: John Mayall e o guitarrista Peter Green, do Fleetwood Mac. Nenhum dos dois participou das sessões, que duraram cerca de quatro horas. Jimi não ficou satisfeito com os resultados. Tanto que trocou de estúdio. Em de 3 de fevereiro de 1967, entrou no Olympic Studios com as masters debaixo do braço. Quem convenceu a ele e a Chas da excelência do Olympic foram outros dois novos amigos: Brian Jones e Bill Wyman, dos Rolling Stones. Ali, Hendrix conheceu naquele dia o engenheiro de som que seria não só um novo amigo, mas um colaborador de todas as horas: o sul-africano Eddie Kramer, que havia participado das melhores sessões dos Kinks na gravadora Pye.

Sob a supervisão de Kramer, Jimi usou o pedal de efeitos Octavia, criado por outro engenheiro de som, Roger Mayer, que também faria o pedal fuzz-box para os guitarristas Big Jim Sullivan, Jimmy Page e Jeff Beck. O Octavia, como o nome antecipa, transpõe notas em oitavas. O trecho de guitarra com o pedal foi gravado em velocidade mais lenta e acelerado por Kramer. Jimi Hendrix, naquela tarde londrina no Olympic Studios, começava a desenvolver outra de suas marcas e manias: a fixação pela experiências de estúdios, que o levaria a torrar fortunas no Eletric Lady Studios. Naqueles idos, contudo, ele ainda era o gringo tentando se adaptar às loucuras de uma nova era em Londres. Com ou sem névoa púrpura.

* Walterson Sardenberg So nasceu em 6 de julho de 1957, o dia em que John Lennon e Paul McCartney se conheceram. Trabalha diariamente como jornalista desde março de 1979.

“Purple Haze” ao vivo:

Fontes e +MAIS:

– Wikipedia

– history.com

– rollingstone.com

– allmusic.com

– societyofrock.com

– liveforlivemusic.com

– books.google.com.br

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