Morre o maestro Rogério Duprat

Há 10 anos… dia 26 de outubro de 2006.

Morre o maestro Rogério Duprat

A batuta revolucionária de Rogério Duprat

POR MARCELO PINHEIRO*

Nesta quarta-feira (26), são completados dez anos da partida de Rogério Duprat. Morto aos 74 anos, em decorrência de uma insuficiência renal provocada por um câncer na bexiga, o maestro – carioca de berço, paulistano de coração – estava internado havia 12 dias, e também sofria do mal de Alzheimer.

“Reduzido” ao posto de artífice da Tropicália, Duprat foi uma das principais cabeças pensantes da música brasileira no século XX. Atento às manifestações de vanguarda do Pós-Guerra, integrou uma trupe insolente de maestros e compositores sintonizados com o ímpeto modernista que impregnou a música popular produzida por aqui a partir da revolução harmônica e lírica da bossa nova no final dos anos 1950, década de transformações embrionárias.

Em junho de 1963, ao lado de outros seis signatários – seu irmão, Régis, Damiano Cozzella, Sandino Hohagen, Julio Medaglia, Gilberto Mendes, Willy Correia de Oliveira e Alexandre Pascoal – Duprat publicou na edição 2 da revista Invenção o manifesto Música Nova (leia, na íntegra). No texto de proposições vanguardistas o grupo defendeu, entre outras revisões estéticas, oposição ferrenha a um certo ufanismo, segundo eles, reducionista e limitador, então vigente na música brasileira em âmbito clássico e popular. No último parágrafo do manifesto, transcrito abaixo, Duprat e seus comparsas não deixam dúvidas sobre as intenções radicais do grupo.

“Apesar do subdesenvolvimento econômico, estrutura agrária retrógrada e condição de subordinação semi-colonial. participar significa libertar a cultura dêsses entraves (infra-estruturais) e das super-estruturas ideológico-culturais que cristalizaram um passado cultural imediato alheio à realidade global (logo, provinciano) e insensível ao domínio da natureza atingido pelo homem.” 

Diferentemente de pares como Pascoal, Mendes, Oliveira e Hohagen, que mais se debruçaram sobre as vertentes da música clássica contemporânea e eletroacústica, Duprat aderiu ao caminho de Julio Medaglia e Damiano Cozzella e lançou mão de ousadias estéticas jamais vistas e ouvidas, naquela segunda metade dos anos 1960, na música popular do País.

Se Medaglia é até hoje reconhecido como autor do arranjo cinematográfico de “Tropicália”, de Caetano Veloso, e Cozzella, como a batuta anárquica por trás do chamado “álbum psicodélico de Ronnie Von”, disco homônimo lançado pelo “Pequeno Príncipe”, em 1968 (saiba mais aqui), Duprat pavimentou e trilhou estrada ainda mais extensa, ao deixar sua marca inconfundível em dezenas de produções lançadas entre os anos 1960 e 70.

Dos discos inaugurais d’Os Mutantes, passando pelo álbum tropicalista de Nara Leão (1968), o anárquico segundo LP de Gal Costa (1969), o monolito tropicalista lançado por Gilberto Gil em 1969 (álbum conhecido como “Cérebro Eletrônico”) e colaborações inusitadas em obras díspares, como Jorge Ben (1969), Trio Mocotó (1971), Mudei de Ideia (1971), da dupla baiana Antonio Carlos & Jocafi, e Construção (1971), de Chico Buarque, Duprat reinou, soberano, como o mais provocativo dos arranjadores da música popular brasileira naquelas duas décadas mágicas para a cultura do País.

Colocar o maestro Duprat nesse totem, em um período em que nossa música popular dispunha de batutas insuspeitas, como Waltel Branco, Moacir Santos, J.T. Meirelles, José Briamonte, Geraldo Vespar, Lyrio Panicalli, Daniel Salinas e Arthur Verocai, é adequar ao contexto da época a exata dimensão de cada um desses protagonistas. Os nomes mencionados há pouco são, para usar um termo preciso de Julio Cortázar, “cronópios” de nossa música popular, mas o lance de dados de Duprat sempre foi outro, suas provocações sempre estiveram a serviço do propósito oswaldiano de, por vias antropofágicas, levar “biscoitos finos” às massas.

Discípulo da máxima de McLuhan “o meio é a mensagem”, Duprat tinha plena consciência de que orquestrações, supostamente ordinárias, para canções de três ou quatro minutos, que bem serviam como carros-chefe de vendagem para a indústria fonográfica brasileira, poderiam ser transformadas em experiência auditivas indizíveis.

No documentário dedicado a ele, “Rogério Duprat: Vida de Músico” (de Pedro Vieira, lançado em 2002) prova cabal dessa teoria desafia os incautos. Em dado momento, o arquivo original de “Baby”, Caetano Veloso em voz e violão, é reproduzido. Na sequência, em contraponto, surge o áudio da versão definitiva, registrada em Tropicália ou Panis Et Circenses. O efeito é arrebatador. Dá a exata dimensão da importância estética do trabalho provocativo de Duprat, “George Martin da Tropicália”, nas palavras de Rita Lee.

Há sete anos, tive a felicidade de encontrar Gilberto Gil para uma extensa entrevista publicada na revista Brasileiros (leia aqui). O gancho da conversa era a passagem dos 40 anos do exílio de Gil e Caetano em Londres. Claro, não perdi a chance de abordar a colaboração de Duprat para o chamado “Grupo Baiano”, como bem definiu o poeta Augusto de Campos sobre a articulação que reuniu Gil, Gal, Caetano, Betânia e Tom Zé. Reproduzo, a seguir, a opinião de Gil sobre sua percepção de dimensão da importância do maestro.

“A presença de Duprat naqueles trabalhos foi decisiva para a conceituação da coisa musical. Ele foi fundamental no contato com os músicos, os Beat Boys, os Mutantes. Foi Rogério que nos apresentou a esse pessoal todo e me aconselhou a fazer, por exemplo, ‘Domingo no Parque’ com os Mutantes e não com o Quarteto Novo, como eu pretendia. Ele achava que, com os Mutantes, a gente ousaria mais e integraria os elementos contemporâneos que a composição almejava. Duprat foi fundamental, pois não era simplesmente maestro no sentido da decupagem, da tradição para o campo musical, era também um filósofo da questão jovem, tinha tido, no campo da música erudita, intervenções importantes, arrojadas e tão ousadas como o Tropicalismo. Nesse sentido, ele já era tropicalista, e ajudou não só a estabelecer o padrão musical do Tropicalismo, como também a própria questão conceitual, filosófica e política do movimento. Ele foi tão importante quanto eu, quanto Caetano, Torquato e Capinam”. 

Sintomaticamente, o manifesto Música Nova é concluído com uma frase sintética do poeta russo Vladmir Maiakóvski: “Sem forma revolucionária não há arte revolucionária”.

Como diz o ditado, “contra fatos, não há argumentos”. Não por acaso, Rogério Duprat, “filósofo da questão jovem”, como afirmou Gil, deve ser reconhecido como a batuta mais revolucionária da música popular brasileira na segunda metade do século XX.

A benção, maestro!

* Marcelo Pinheiro considera-se jornalista desde que, aos 14 anos, do próprio bolso, começou a produzir fanzines xerocados sobre a cena independente de rock paulistano do começo dos anos 1990. Desde 1997 atua na imprensa cultural. Atualmente, é editor de Cultura da revista Brasileiros.

Em tempo:

Ouça a íntegra de Brazilian Suite, álbum instrumental lançado por Rogério Duprat pelo cultuado selo britânico KPM, em 1970.

“Caminhante Noturno”, em inglês:

+MAIS:

– Wikipédia

– cultura.estadao.com.br

– enciclopedia.itaucultural.org.br

– tropicalia.com.br

– musica.uol.com.br

– dicionariompb.com.br

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