Morre o guitarrista Paul Kossoff

Há 40 anos… dia 19 de março de 1976.

Morre o guitarrista Paul Kossoff

A morte anunciada de Koss

POR WALTERSON SARDENBERG Sº*

Quando o guitarrista americano Steve Miller lançou seu inspirado, descolado — e pop — álbum “Fly Like An Eagle”, em maio de 1976, muitos garotos mundo afora se perguntaram, ao ouvir o riff inicial da faixa “Rock’n’Me”: seria um plágio ou uma homenagem? Explique-se: o riff era o mesmo, sem tirar nem por, de “All Right Now”, da banda inglesa Free, que chegara às lojas, e ao topo das paradas, seis anos antes.

Pelo menos entre a minha turma de adolescentes, todos roqueiros convictos, chegou-se ao consenso de que era uma sincera e comovida homenagem – assim como “Mr. Soul”, do Bufallo Sprienfield, foi, muitos anos antes, uma cerimoniosa citação de “Satisfaction”, de Mick Jagger e Keith Richards.

Mesmo porque, ora essa, o prolífico Steve Miller não precisava afanar riff de ninguém. Criava os dele, com apuro e feeling. Além disso, Steve tinha um motivo e tanto para pagar tributo ao Free àquela altura: o guitarrista do grupo britânico, o grande Paul Kossoff, morrera havia apenas dois meses. Nada mais natural que homenageá-lo, rememorando o seu riff mais conhecido. Nem eu e nem meus cupinchas roqueiros sabiam, no entanto, que, quando Kossoff morreu, o disco de Steve Miller já estava pronto.

A morte de Kossoff era, havia ao menos cinco anos, uma morte anunciada. Deprimido por problemas pessoais e devastado pelo consumo em excesso de aditivos, o tímido guitarrista vinha se arrastando em uma trajetória decadente, apesar da pronta ajuda de amigos. No dia 19 de março de 1976, há exatos 40 anos, ele entrou num avião que voou de Los Angeles para Nova York. No decorrer da viagem sentiu-se mal e tropeçou até o banheiro. Foi encontrado sem vida no toalete. Sofreu edemas cerebral e pulmonar. Decorrência, ao que tudo indica, de uma overdose.

Koss, como era chamado pelos chegados, tinha apenas 25 anos. Embora tão jovem, já construíra uma carreira de respeito. Sobretudo com o Free, a banda que assustou muita gente boa quando foi lançada por Chris Blackwell, dono da Island Records, em 1968. Era difícil acreditar que aquele acachapante som de blues-rock bem trabalhado, estiloso, classudo, com uma pegada muito pessoal, vinha de quatro magrelos brancos e tão jovens. Quase pivetes.

Quando o primeiro álbum, Tons and Sobs desaguou nas lojas, Paul Kossoff tinha apenas 19 anos e já esmerilhava em sua Les Paul Surnburst 1959 — o melhor modelo da Gibson em todos os tempos, segundo os fãs da marca. Koss, de cara, mostrava ao que veio. Seu fraseado muito próprio destilava, desde aquele primeiro álbum, as características que marcariam o seu estilo: um timbre único; uma tensão constante entre o agressivo e o lírico; o uso personalíssimo do vibrato; o “choro” muito bluesy; o desprezo pela velocidade como recurso estético; a utilização parcimoniosa dos licks.

Os companheiros de banda também eram fedelhos. O baterista Simon Kirke, que já tocara com Koss no grupo Black Cat Bones, estava com 19 anos. A mesma idade, por sinal, do fantástico Paul Rodgers, um vocalista com tudo de melhor — à exceção da ausência um dente da frente, como pode ser observado na poderosa apresentação do grupo no Festival da Ilha de Wight de 1970. Rodgers compunha a maior parte do material do Free, geralmente em parceria com o baixista Andy Fraser, um pirralho. Quando Tons and Sobs foi lançado, ele tinha somente 16 anos.

Paul Francis Kossoff nasceu em Londres, numa família judaica, no dia 14 de setembro de 1950. Tinha a quem puxar. Seu avô foi um alfaiate conhecido. Já o pai de Koss, o ator David Kossoff, teve uma respeitável trajetória no teatro e no cinema britânicos e até internacional. Encarnou, por exemplo, o pai de Sigmund Freud em “The Second Passion” (no Brasil, “Freud, Além da Alma”), rodado por John Huston em 1962, com participação de Jean-Paul Sartre no roteiro e com Montgomery Clift no papel principal.

Ao perceber o talento musical do filho, David o incentivou a estudar violão erudito. Koss teve aulas ao longo de seis anos. Talvez se tornasse um concertista, não fossem duas paixões na adolescência. Primeiro, os guitarristas americanos de blues. Depois, uma epifania durante uma apresentação dos Bluebreakers, de John Mayall, no ano de 1965. Koss ficou deslumbrado pelo som que o guitarrista da banda tirava de sua Gibson Les Paul. Tratava-se de um certo senhor Eric Clapton, o mesmo que seria, à época, chamado de “God” em pichações nos muros londrinos.

No ano seguinte, Koss tentava, a muito custo, vencer a timidez, tocando em alguns grupos anônimos. Até que fez amizade com um dos “pais” do blues britânico, o mitológico Alex Korner. Foi Korner quem o apresentou a diversos outros jovens blueseiros. Ainda em 1966, conheceria, de maneira fortuita, o guitarrista que o deixaria perplexo e sem fala.

Àquela altura, Koss vinha trabalhando em uma loja de instrumentos musicais. Por lá apareceu um negro magro e alto, de cabelos eriçados, perguntando se havia à venda alguma guitarra para canhotos. Não, infelizmente, Koss não tinha nenhuma no estoque. O tal negro soltou um muxoxo e resolveu ligar no amplificador uma guitarra para destros mesmo. Só que tocava como canhoto, invertendo a posição dos acordes. Koss simplesmente não acreditou no que via — e, em especial, no que ouvia.

O caro leitor já deve ter imaginado que o tal canhoto era o americano Jimi Hendrix, que desembarcara em Londres em setembro de 1966; e dois meses mais tarde lançaria o seu primeiro compacto-simples, “Hey Joe”. Koss ficou tão maluco por aquele som que, dali por diante, seguiria Hendrix por toda a Inglaterra, como se estivesse diante de uma figura messiânica. Quando Hendrix morreu, em 1970, Koss, desolado, resolveu largar tudo e se mandar para o funeral, em Seattle, nos Estados Unidos. Foi o baterista do Free, Simon Kirke, quem o conteve.

A última vez em que Koss viu Hendrix foi na virada de 30 para 31 de agosto. Ou seja, 17 dias antes da morte do guitarrista americano. Era o Festival da Ilha de Wight, na Inglaterra. Com algumas horas de diferença, Free e o Jimi Hendrix Experience fizeram apresentações opostas. Exatamente. Hendrix mostrou-se inacreditavelmente borocoxô — embora o borocoxô de Hendrix já desse um caldo e tanto. O Free, ao contrário, esteve em uma de suas grandes tardes. Arrasou. Arrebentou. Botou para ferver.

O set list do grupo consistiu de dez músicas. Simplesmente o suprassumo do seu repertório. De Tons and Sobs, o álbum de estreia, a banda tocou “I’m a Mover” e “The Hunter”, o clássico composto por Steve Cropper e seus companheiros dos MG’s. Do segundo LP, o flamejante Free — batizado apenas com o nome da banda e lançado em 1969 —, escolheu a ótima “Woman”. Numa prova de que o ano de 1970 foi o auge do grupo, três outras músicas saíram de Fire and Water, álbum lançado naquele ano: a envolvente faixa-título, “All Right Now” e o petardo “Mr. Big”, em que Kossoff arrasa não só no solo como também na “cama” que arma para outro solo bem fornido, o do baixista Andy Fraser.

Ainda para o tremendo show da Ilha de Wight, o Free optou por três levadas que seriam incluídas em Highway, o quarto álbum do grupo e também colocado à venda naquele ano de 1970: “The Stealer”, “Ride on a Poney” e a despedaçante balada “Be My Friend”. O disco começou a ser gravado poucos dias depois do show no festival, que, aliás, terminou com uma versão apocalíptica de “Crossroads”, de Robert Johnson.

Depois de dois LPs do barulho, do sucesso estrondoso do single “All Right Now” e de mostrar que ao vivo fazia ainda melhor, era de supor que o Free navegasse em velocidade de cruzeiro, aproveitando o ótimo momento. Mas não. Brigas internas botaram tudo a perder. Um dos motivos dessas rixas era o comportamento de Koss, cada vez mais imprevisível. Ele deu canos seguidos. Aparecia para ensaiar — quando aparecia — em estados deploráveis.

O vocalista Paul Rodgers era um fã exaltado do talento de Koss. Mas começou a perder a paciência. “Ele mal conseguia conectar a guitarra no amplificador”, queixou-se. No caso, dava algum trabalho. Koss trocara os pequenos amplis Orange por gigantescos Marshall — que, assim como Hendrix, ligava em série. Em abril de 1971, os tabloides britânicos de música Record Mirror e Melody Make” anunciavam: “Free Split!”. O grupo havia acabado. A saúde de Koss, quase.

Em setembro daquele ano a Island Records botou na praça um dos melhores LPs ao vivo da década de 70: Free Live!. Gravado com todo o carinho pelo engenheiro Andy Johns em shows no interior da Inglaterra (Sunderland e Croydon) nos meses de janeiro e setembro no ano anterior, o LP é daqueles discos gravados em alto volume para serem ouvidos também em alto volume. Mostra um Free ao mesmo tempo pesado e funk. Um primor. A bolacha chegou ao quarto lugar nas paradas britânicas, embora não tenha ido além da 89ª posição nos Estados Unidos.

Àquela altura, Koss fazia jam-sessions e tocava nos discos dos amigos. Mas seu estado era desolador. Fraser rememoraria: “Na casa de Koss encontramos centenas de doidões fracassados deitados por todo o chão e Koss no andar de cima, debilitado, recebendo mais e mais drogas de outros debilitados”.

Um álbum de Kossoff gravado com Kirke, o baixista japonês Tetsu Yamauchi e o tecladista americano John “Rabbit” Bundrick —  disco batizado, a propósito, de “Kossoff, Kirke, Tetsu and Rabbit” — chegou a esboçar um retomada. Nele, Koss debulha na faixa “Blue Grass” e até canta em “Colours”. Ainda assim, o guitarrista estava à beira de perder a batalha para as drogas e os antidepressivos. Ele tomava um Quaalude atrás do outro. E ainda bebia por cima.

Sua derrocada atingiu tal ponto que Rodgers, Fraser e Kirke, os ex-companheiros de grupo, decidiram fazer alguma coisa pelo camarada. Chegaram à conclusão de que a melhor solução seria reativar o Free. Com Koss perto deles, teriam mais controle da situação. Sim, eles o tirariam do buraco.

O clima, de início beneficente, todavia, tornou-se conturbado e não ajudou nem um tiquinho na feitura do sexto álbum do Free. O título do LP, Free at Last (“Finalmente Livre”), parecia outro alento. Só que o disco, à exceção de uma ou outra passagem, é chocho. A crítica não perdoou e detonou o “Finalmente Livre”. Andy Fraser resolveu pedir o boné. Formou a banda Sharks e tentou, mais tarde, a carreira solo. Morreria em 2015, de câncer, aos 62 anos, depois de assumir a homossexualidade. Havia, também, contraído Aids.

Em 1973, ao deixar o Free, Fraser foi logo substituído por Tetsu Yamauchi, um baixista sem brilho. Em compensação, os rapazes ganharam os delicados teclados de Rabbit, autor de “Muddy Water”, uma das melhores faixas do derradeiro disco do conjunto, Heartbreaker.

 

Quando se esperava que daquele mato não sairia coelho — apesar do Rabbit —, os rapazes botaram para quebrar. Embora não chegue aos píncaros de Fire and Water, o surpreendente Heartbreaker tem coisas ótimas, a começar pela faixa-título, com seu riff soturno, um momento sublime de Koss. Nem parece que o álbum foi gravado em um ambiente tão pouco amigável.

Rodgers, que comandou os rumos do LP (e aparece sozinho na capa, em foto de alto contraste), contratara outro guitarrista, o texano “Snuffy” Walden — por sinal, muito bom —, para ocupar as lacunas de Kossoff no estúdio. Não foi a melhor ideia. Koss se enfureceu. Das oito faixas, ele aparece em cinco. Manda muito bem em “Come Togheter in the Morning”, com um solo de sutileza rara. Também brilha em “Wishing Well”, o derradeiro sucesso do Free nas paradas. Mas estava tão alheio a tudo que aparece apenas como “convidado” nos créditos.

Quando o Free zarpou para a turnê americana de Heartbreaker, Koss ficou fora da convocação. Foi substituído pelo guitarrista do Osibisa, Wendell Richardson.

A banda teve um final melancólico. Tetsu foi para o Faces. Rabbit se tornaria, mais tarde, músico de apoio do The Who. Rodgers e Kirke saíram para formar o Bad Company, com o guitarrista Mick Ralphs (ex-Mott the Hoople) e o baixista Boz Burrell (ex-King Crimson). Apadrinhado pelo agente Peter Grant, do Led Zeppelin, o grupo se tornou um dos primeiros contratados do Swan Song, o selo próprio de Jimmy Page, Robert Plant & companhia. Mais do que isso: graças a um LP de estreia memorável, o Bad Company estourou nos Estados Unidos, vendendo milhões de cópias.

Koss não teve a mesma sorte. Sim, acalentava o sonho de montar uma banda. Chamou muita gente de primeira para o estúdio — incluindo o batera Alan White, do Yes —, mas tudo o que conseguiu foi uma sucessão de jam-sessions. Já não tinha disciplina suficiente para mais do que isso.

Ainda assim, seu primeiro disco solo, Backstreet Crawler, saído dessas gravações, tem um material excelente, embora não seja um produto tão bem acabado quanto o primeiro do Bad Company. Prova disso é a visceral faixa instrumental “Tuesday Morning”, com Rabbit nos teclados e que ocupa todo o primeiro lado do LP. Uma pedra preciosa, embora não lapidada. Já “Molten Gold”, composta por Koss, traz o Free inteiro. Sua guitarra “chora” com plena beleza. É a despedida não-oficial em estúdios do Free — banda que, no fundo, Koss jamais quis deixar.

O nome Backstreet Crawler, por fim, virou o de um grupo comandado pelo guitarrista. À frente dele, Koss lançou outros dois álbuns, The Band Plays On (1975) e 2nd Street (1976). Ambos contêm boa música. Em especial, se levadas em conta as condições em que foram gravados. Com a saúde cada vez mais precária, o frágil líder do grupo padeceu de uma úlcera muito dolorosa. Durante o tratamento, sofreu um ataque cardíaco. Pouco depois, muitos shows do Blackstreet Crawler acabaram cancelados. O motivo: Koss se estatelara no chão e quebrara alguns dedos.

O baixo astral de Paul Kossoff se agravara com o sucesso cada vez maior do Bad Company, de seus velhos parceiros. Ele se sentia passado para trás, injustiçado. Mais uma justificativa para se dopar. Talvez a autocomiseração fosse menos penosa, caso soubesse quantos guitarristas influenciaria.

A lista é extensa. Fiquemos com apenas alguns. Angus Young, do AC/DC, já admitiu ter baseado seu vibrato no de Koss. Slash e Doug Aldrich (do Witesnake) e o nosso Herbert Vianna são outros fãs entusiasmados. Brian May, do Queen, também é devoto. “Kossoff era o epítome do cool”, disse em uma entrevista recente. David Murray, do Iron Maiden, não sossegou enquanto não comprou uma guitarra que pertenceu a Kossoff. O mesmo vale para Joe Bonamassa. Este se deu melhor: comprou “aquela” Les Paul 59. Com ela, aparece em um emocionado vídeo no YouTube, tocando a magistral “Mr. Big”. Ah, também Steve Miller já confessou: o riff inicial de “Rock’n’Me” foi, de fato, uma homenagem ao grande Paul Kossoff.

No começo de março de 1976, poucos dias antes de Koss morrer atravessando a América de avião, uma casualidade junguiana ocorreu em Los Angeles. O Bad Company havia marcado grandes shows no Forum, da cidade. Sabe-se lá como, Paul Kossoff conseguira juntar os cacos e levar seu Backstreet Crawler para uma série de quatro shows em um clube local, o Starwood. Pois não é que Paul Rodgers e Simon Kirke vibraram tão logo souberam da coincidência de datas?

Assim, todas as noites, bastava terminar o show do Bad Company no Forum e os dois já se bandeavam para o Starwood. Claro que o grande momento, para Koss e os felizardos frequentadores do Starwood, ocorria quando Rodgers e Kirke subiam ao pequeno palco para tocar “All Right Now”, “Fire and Water” e “Wishing Well”, entre outras.

A volta do Free era tudo o que Paul Francis Kossoff queria. E foi o que teve em grande estilo antes de voar de Los Angeles, onde, ao menos por uns dias, ele foi fluido, idílico e perfeito, como os seus melhores solos na Les Paul.

* Walterson Sardenberg So nasceu em 6 de julho de 1957, o dia em que John Lennon e Paul McCartney se conheceram. Trabalha diariamente como jornalista desde março de 1979.

Documentário do YouTube sobre Paul Kossoff:

+MAIS:

Wikipedia

Wikipédia

– paulkossoffofficial.com

– allmusic.com

– rollingstone.com

– premierguitar.com

– gibson.com

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