Morre Nelson Rodrigues

Há 35 anos… dia 21 de dezembro de 1980.

Morre Nelson Rodrigues

POR RODRIGO MELLO*

“Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo. Perguntou-me: ‘O que é que você leu?’. Respondi: ‘Dostoiévski’. Ele queria me atirar na cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu: ‘Que mais?’. E eu: ‘Dostoiévski’. Teimou: ‘Só?’. Repeti: ‘Dostoiévski’. O sujeito, aturdido pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada. Mas eis o que eu queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoiévski. Ou uma única peça de Shakespeare. Ou um único poema não sei de quem. O mesmo livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Pode haver um tédio na primeira leitura. Nada, porém, mais denso, mais fascinante, mais novo, mais abismal do que a releitura”.

Nelson Rodrigues (1912-1980) faleceu há 35 anos, no Rio de Janeiro. Pode-se viver para uma única peça de Nelson, pode-se viver para algumas de suas crônicas. Nada mais denso, mais fascinante, mais novo, mais abismal, do que ir a uma nova encenação de “O Beijo no Asfalto”, ou “Vestido de Noiva”, ou “Toda Nudez Será Castigada”. Ou mesmo reler uma de suas peças ou seus conjuntos de crônicas (que o autor chamava de “confissões”, um trabalho que foi quase diário a partir da segunda metade de sua vida, e com o qual ajudou a elevar a crônica brasileira ao lugar de destaque que tem em nossa literatura).

Como escrevia bem Nelson Rodrigues! Norma culta e linguagem coloquial se misturam imperceptivelmente, enredando o espectador/leitor num mar de pausas, elipses, digressões e fluxos de consciência que são uma verdadeira aula de literatura. Não é uma heresia dizer que ele é um dos grandes da língua portuguesa, um grande contador de histórias, construtor de personagens memoráveis e definitivos, tão brasileiros e tão universais.

Mas o que tornou Nelson Rodrigues imortal foi sua capacidade de entender o ser humano, como só os grandes conseguem fazer. Se fazia as confissões dele, faço uma minha: eu frequentemente me pego sorrindo enquanto leio Nelson. Sorrio diante do deboche, da ternura, da crueza, da ironia, da escolha sempre perfeita das palavras e, principalmente, sorrio diante de tanta lucidez. Mas quero provar meu ponto: enquanto escrevo estas linhas, tenho em minha escrivaninha um exemplar de “O óbvio ululante”, coleção de crônicas escritas pelo autor ao longo de 1968, ano tão intenso para o mundo, das quais destaquei no parágrafo de abertura deste post. Abro novamente o livro e corro suas páginas aleatoriamente; passo os olhos por uma crônica e logo encontro parágrafos de antologia, sobre a estreia da peça “Roda Viva”:

“(…) Em capítulo recente, contei um episódio familiar realmente patético. Certo filho vira-se para o pai e diz-lhe: – ‘Papai, cala a boca ou te parto a cara !’. O pai foi magistral. Reagindo como um ‘compreensivo’, deu ao filho um Ford Galaxie.

Os ‘compreensivos’ são cada vez em maior número. Nós os encontramos por toda parte. Estão nas salas, nos escritórios, nas alcovas, nos tribunais, nas igrejas. O dr. Alceu é um ‘compreensivo’; o padre Ávila, outro. É justamente essa compreensão urgente e fulminante que desesperava Gide.  

O ‘compreensivo’ vai ao teatro, recebe um esguicho de sangue e não se espanta. E aqui chegamos à palavra certa. Reparem como o brasileiro se espanta cada vez menos. Somos, hoje, um povo de pouquíssimos espantos. Li ontem uma senhora ‘compreensiva’. Redigiu uma crônica que era o seu deslumbramento impresso. Eu, se fosse o Chico, ou se fosse o Zé Celso, estaria frustrado e humilhado com uma compreensão assim ultrajante. 

Ah, uma senhora ‘compreensiva’ é capaz de tudo. Se lhe servirem, num banquete, uma ratazana ensopada, não pensem que fará a concessão de uma surpresa. Jamais. Nada a espanta. Tem sempre, e nas emergências mais cruéis, uma aristocrática naturalidade, uma melíflua negligência. Suprimiu dos seus hábitos o ponto de exclamação. É ratazana ? Pois que seja ratazana, e com abóbora”.

Sorrio lendo essas palavras, palavras quaisquer de Nelson. Palavras duras, polêmicas, na contramão de toda a classe artística e intelectual de então. Palavras, porém, que são o retrato de um tempo, de um mundo em transformação. Como faz falta ao Brasil um pensador do porte de Nelson Rodrigues, com todas as suas contradições, mas com toda sua imensa lucidez.

Nelson Rodrigues faleceu no dia 21 de dezembro de 1980, há 35 anos, no Rio de Janeiro. Por ser início do verão, provavelmente fazia um calor de derreter catedrais.

*Rodrigo Mello é psicólogo e professor, e se lhe perguntarem o que leu na vida, poderia responder: “Nelson Rodrigues”.

Trecho antológico do filme “Bonitinha, mas ordinária”, adaptado da peça “Bonitinha, mas ordinária, ou Otto Lara Resende”:

Fontes:

– Livro “Memórias de Nelson Rodrigues”, de Nelson Rodrigues – Edições Correio da Manhã, 1967

– Livro “O óbvio ululante – primeiras confissões”, de Nelson Rodrigues – Companhia das Letras, 1993

– Livro “O Anjo Pornográfico – a vida de Nelson Rodrigues”, de Ruy Castro – Companhia das Letras, 1992

+MAIS:

– Acervo Estadão

– Acervo Folha

– Wikipédia

– itaucultural.org.br

– revistabula.com

– diariodocentrodomundo.com.br

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4 comentários sobre “Morre Nelson Rodrigues

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