Morre o cineasta Orson Welles

Há 30 anos… dia 10 de outubro de 1985.

Morre o cineasta Orson Welles

POR ALEXANDRE AGABITI FERNANDEZ*

Quando morreu, aos 70 anos, no dia 10 de outubro de 1985, o cineasta norte-americano Orson Welles deixou uma obra profundamente moderna e inovadora, composta por dezenas de filmes, roteiros e projetos espalhados por diferentes épocas e países, muitas vezes abandonados antes da rodagem. Compreendido em vida apenas por uma pequena parcela do público e por boa parte da crítica, o legado de Welles foi recentemente celebrado pela imprensa de todo o mundo por ocasião do seu centenário de nascimento, em 6 de maio deste ano.

Aprendiz de pintor e de toureiro na primeira juventude, prestidigitador amador, ator e diretor de teatro com grande predileção por Shakespeare, homem de rádio e de televisão, Welles foi um gênio de múltiplos talentos que brilhou especialmente no cinema. François Truffaut disse certa vez que pertencia a “uma geração de cineastas que decidiu fazer filmes depois de ter visto ‘Cidadão Kane’”.

Constantemente apontado como o melhor filme de todos os tempos em enquetes realizadas entre críticos, “Cidadão Kane” é mesmo um marco na história do cinema. Foi rodado em 1940, quando Welles tinha 25 anos eapenas um curta no currículo.

A adaptação radiofônica que fizera em 1938 do romance “A Guerra dos Mundos”, de H. G. Wells, sobre uma invasão marciana, havia semeado o pânico em milhões de ouvintes. A insólita façanha rendeu a Welles, no ano seguinte, um contrato sem igual na história de Hollywood: ele teria todos os meios técnicos e humanos à disposição e poderia escolher ser ator, diretor, roteirista ou produtor.

Inspirado na vida do magnata da imprensa William Randolph Hearst (1863-1951) – o primeiro da longa série de patifes que são os personagens principais na obra de Welles–, “Cidadão Kane” fundou o cinema moderno com um duplo movimento: reabilitando aspectos do cinema mudo caídos em desuso e introduzindo novas idéias.

Welles deu grande importância ao uso da lente grande-angular, que oferece um campo visual maior, com mais profundidade de campo; aos enquadramentos em câmera baixa; aos cenários com teto; aos longos planos-sequência; à relação direta entre atores e cenário. Esses procedimentos que dão corpo à mise-en-scène – muitos deles praticados no período do cinema mudo e colocados de lado com o advento do filme sonoro – deixam claro que “a técnica não é apenas outra maneira de por em cena, ela põe em causa a própria natureza da narrativa”, como escreveu o crítico André Bazin, uma intuição que mudou o modo de pensar o cinema.

Além disso, o cinema de Welles deu muita importância à montagem, tratando-a como ritmo e música, e colocou o espectador num novo lugar, convidando-o a participar do processo de criação de sentido do filme. Neste último aspecto está o essencial da modernidade do seu cinema.

O primeiro longa-metragem de Welles se organiza como um filme-enquete, em que um repórter procura reconstituir a vida do personagem central, já morto. Para tanto, ele entrevista várias pessoas que o conheceram. Essa multiplicidade de pontos de vista fornece um retrato complexo e contraditório que o próprio espectador deve concluir. Além disso, a descontinuidade da narrativa, a fragmentação estilística e a mistura de gêneros instalam uma heterogeneidade nunca vista nas telas até então. Welles construiu um estilo intimamente ligado ao sentido do filme – que retrabalhou e ampliou em suas obras posteriores –, algo que questionava os cânones de Hollywood na época, segundo os quais o estilo deveria desaparecer diante da história a ser contada, ou no máximo se adaptar a ela.

Essa ousadia estética não foi bem recebida pelo público norte-americano, acostumado com histórias lineares e nada habituado a ter papel ativo na relação com os filmes. Os estúdios de Hollywood tampouco compreenderam sua proposta e não demoraram a torpedear seus filmes, amputando sequências inteiras e alterando profundamente a montagem. “Soberba”, seu segundo longa, rodado entre 1941 e 1942, teve um terço de sua metragem suprimido pelos produtores.

“É Tudo Verdade”, documentário parcialmente rodado no Brasil em 1942, nunca foi concluído e permaneceu perdido durante décadas.

Sem espaço em Hollywood, a partir dos anos 1950 Welles começou a trabalhar como ator em filmes alheios para poder financiar seus próprios projetos. Quando conseguia recursos, filmava na Europa, onde encontrou uma atmosfera mais receptiva às suas ideias. No velho continente, entrou em contato com os jovens críticos ligados à Nouvelle Vague, os primeiros a reconhecer sua genialidade. Viram nele o exemplo acabado do autor que sabia enfrentar os poderes econômicos e que continua sendo referência para as novas gerações de cineastas.

* Alexandre Agabiti Fernandez é doutor em cinema e jornalista cultural.

Orson Welles fala sobre “Cidadão Kane”, em entrevista de 1960:

+MAIS:

Wikipedia

g1.globo.com

– zh.clicrbs.com.br

revistacult.uol.com.br

theguardian.com

– thecinematheque.ca

– wsj.com

IMDb

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