Roma fecha Olimpíadas e uma era

Há 55 anos… dia 11 de setembro de 1960.

11set1

POR DANIEL MÉDICI *

Já era noite em Roma e o Stadio Olimpico, lotado, era iluminado pela chama das dezenas de tochas dispostas no meio da multidão. A pira olímpica já havia sido apagada, e a bandeira das cinco argolas, recolhida. O refletores se acenderam e a palavra “Tokyo” apareceu escrita no painel eletrônico. A 17ª Olimpíada da era moderna estava, portanto, encerrada.

A capital italiana havia sido escolhida como a sede dos Jogos de 1908, mas, após uma erupção do Vesúvio que devastou Nápoles dois anos antes, o país se viu obrigado a desistir do evento para custear os esforços de reconstrução. Cinquenta e dois anos e duas guerras mundiais depois, as Olimpíadas encontraram uma cidade muito diferente da que haviam deixado. Mussolini já havia chegado e partido, e construído uma nova cidade à sombra da capital imperial.

Para acolher os 5.338 atletas de 17 esportes, Roma criou e ampliou avenidas, abriu bairros inteiros, como a própria vila olímpica, dizimou sua frota de bondes para dar espaço às Vespas, às Lambrettas e aos Fiat Cinquecento barulhentos e ergueu o aeroporto internacional Leonardo da Vinci, em Fiumicino — imagine que esse primo pobre dos grandes ‘hubs’ europeus, que hoje é a porta de entrada à habitual desorganização italiana, já foi símbolo da pujança do país!

Era a Roma do ‘boom’ econômico pós-guerra, de Federico Fellini (“La Dolce Vita” havia sido lançado no mesmo ano), capital de um país recém-reconstruído e otimista que rumava em direção ao futuro assobiando “Volare”.

Foram os primeiros Jogos Olímpicos com cobertura televisiva total, num esforço hercúleo da RAI, que produziu 106 horas de programação esportiva, transmitidas ao vivo para toda a Europa via Eurovision. Os EUA podiam ver as imagens no dia seguinte, depois que os registros chegassem, de avião, à CBS, em Nova York.

Foi em Roma que os americanos viram seu ídolo do boxe Cassius Clay, que um dia se tornaria Muhammad Ali, ganhar uma medalha de ouro, no início da carreira. [NOTA DO EDITOR: momento recuperado aqui no blog, já que a conquista aconteceu em 5 de setembro]

11set2

Mas Clay não foi o único a ter ingressado no “panteão” romano. Talvez o mais ovacionado de todos, por motivos óbvios, tenha sido o italiano Livio Berrutti, primeiro europeu a vencer os 200 metros rasos no atletismo, levando o Stadio Olimpico abaixo.

O grande campeão dos Jogos, porém, e um dos mais improváveis foi, sem dúvida, Abebe Bikila. Um desconhecido até então, o etíope venceu a maratona correndo com os pés descalços! [NOTA DO EDITOR: mais uma história registrada aqui no blog, mais precisamente na edição de ontem]

O encerramento dos Jogos Olímpicos foi, também, de certa forma, o encerramento simbólico do círculo virtuoso italiano no pós-guerra. Após uma década de pujança econômica, a Itália entrou numa série de crises econômicas e políticas, culminando nos chamados Anos de Chumbo do país.

Apesar de, diferentemente do Brasil, não ter se instalado uma ditadura, os anos 60 e 70 fizeram do país palco de atentados tanto de grupos neofascistas como de extrema-esquerda. De 1969 a 1980, diversos ataques terroristas, como as bombas da piazza Fontana e o massacre da estação de trem de Bolonha (que deixaram, respectivamente 17 e 85 mortos, em 1969 e em 1980) mancharam a política do país e abalaram o otimismo pós-reconstrução.

O mesmo tom de fim de uma época dourada também se aplica ao campo esportivo.

David Maraniss, autor do livro “Roma 1960 – As Olimpíadas que Mudaram o Mundo” (ele diz que o título foi dado pelo editor sem seu consentimento), ao ser questionado sobre qual havia sido a marca dos Jogos, pelo jornal “La Reppublica”, respondeu: “Sua irrepetibilidade. [O esporte] não desapareceu diante das grandes notícias [como em edições seguintes]: o ‘black power’ na Cidade do México, o ataque do Setembro Negro em Munique, os boicotes de Moscou e Los Angeles, o doping em Seul”.

*Daniel Médici, idade não revelada, é praticante de yoga, fanático por automobilismo, escritor de livro nenhum que também é jornalista e trabalha na Folha de S.Paulo.

Aqui um panorama da cerimônia de encerramento da Olimpíada de 1960!

Fontes:

Wikipedia

Olympic.org

British Pathé

Repubblica

The Guardian

Fala!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.