Alpinistas chegam ao topo do Annapurna pela face Sul

Há 45 anos… dia 27 de maio de 1970.

Alpinistas chegam ao topo do Annapurna pela face Sul

POR ARTHUR MELLO*

O sol estava para nascer naquela manhã gelada de janeiro. Meu fiel guia batia na porta do meu quarto um pouco mais cedo do que o usual. Apesar de ter dormido relativamente cedo, aquela noite tinha sido particularmente diferente. Um misto de muito frio, profunda euforia e muita expectativa para a aurora que se aproximava.

Não precisei me vestir. Meu cantil ao lado da cama com a água congelada era uma lembrança real dos -20 graus do lado de fora. Não consegui colocar minha bota, estava congelada também. Usei meu chinelo com a bandeira da França, que até pouco tempo era meu lugar preferido aqui na Terra.

Abri a porta e ali estava a imagem que sonhei por mais de uma década. O sol nascendo no anfiteatro que é a cadeia de montanhas que compõe o Annapurna.

Arrisco dizer que as emoções de Dougal Haston, Don Whillans e Sir Chris Bonnington eram bem parecidas naquela manhã de maio de 1970. Como um brilhante escalador e líder, Bonnington sempre foi conhecido por suas expedições audaciosas.

Para todos aqueles que viram de perto o paredão de 4.000 metros de pedra que é a face Sul do Annapurna é quase inacreditável pensar ser possível alcançar o cume da mais letal montanha, com altura acima de 8.000 metros.

Naquele janeiro de 2013, eu repeti os passos da expedição britânica. Passando por Pokhara e seu lago,  subindo as intermináveis escadas de Chomrong, a vila que é a porta do santuário de Annapurna e vi de perto o guardião Machapuchare, um monolito preto em formato de rabo de peixe.

Annapurna, The Hard Way. A verdade é que lendo o relato da expedição de 1970, a perfeição do planejamento e a relativa facilidade de alcançar o cume da face Sul, a explicação para tal nome vem apenas nas ultimas páginas. Ian Clough, outro membro da equipe, morreu na descida abatido por um serac (um pilar de gelo).

Naquela manhã, após um rápido café da manhã, me despedi do Annapurna. Andei alguns metros com neve até a cintura para prestar minha homenagem a Clough e Anatoly Boukreev, o até hoje incompreendido escalador russo. Boukreev foi, talvez, o mais brilhante montanhista de sua geração, mas pereceu na mesma face Sul do Annapurna. Até hoje, é mais conhecido por sua participação no desastre do Everest de 1996. Uma pena. Sua biografia traduzida do russo é certamente um dos livros mais belos que li na vida.

Tenho certeza que Sir Chris, como eu, sofre com as notícias e imagens vindas do Nepal após o terremoto. Fui para o Nepal atraído pelo magnetismo do Annapurna e pela possibilidade de conhecer o infinito que são as cadeias de montanhas do Himalaia. Hoje quero voltar para ajudar o povo que conheci e o país que aprendi a amar. Depois daquela viagem, é difícil de não querer voltar para as montanhas quando meu coração está só.

Força Nepal.

* Arthur Mello visitou o Nepal em 2013 e conheceu de perto o Annapurna. Voltou apaixonado pelo país e pelo povo nepalês e desde então sonha todos os dias em poder voltar. É um dos criadores do Conexão Brasil-Nepal, que está angariando fundos para ajudar o país devastado pelo terremoto. Saiba como ajudar AQUI

Documentário The Hard Way – annapurna South Face (1970):

Fontes:

Wikipedia

mountaineeringreview.blogspot.com.br

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