No milagre de Istambul, Liverpool conquista a Champions

Há 10 anos… dia 25 de maio de 2005.

No milagre de Istambul, Liverpool conquista a Champions

POR FELIPE FIGUEIREDO MELLO*

O futebol é esse fenômeno absolutamente ilógico e, por isso mesmo, tremendamente apaixonante. É capaz de nos fazer viver os melhores e piores sentimentos e reações em questão de segundos.

Volto ao efemérides para descrever o atordoante e maravilhoso fenômeno. No ano passado, pude lembrar da final da Liga dos Campeões de 1999, cuja taça trocou de mãos em pouco mais de dois minutos.

Eu definitivamente não sei o quê é mais cruel: se a guilhotina metafórica a cortar cabeças e esperanças em um momentâneo lapso de desrazão, como em 1999. Ou se a dura tortura da virada em longos e inacabáveis 45 minutos, como o quê ocorreu em Istambul, dez anos atrás.

A sensação mais incrível e deliciosa de experimentar em um jogo como Milan e Liverpool, pela final da Liga dos Campeões de 2005, é a antítese do “eu acredito” versus o “eu não acredito”. Em jogos decisivos que se prezem, é sobre essa tensão que caminha a disputa. E, em seus interstícios, aquele instinto primitivo que nos mantém colados ao jogo, sabendo que este só acaba quando termina.

O Milan era, definitivamente, o grande time do continente naquele momento. Era uma máquina dirigida por Carlo Ancelotti: chegou à competição com o peso da camisa e do scudetto da temporada anterior. Além disso, a base do time era praticamente a mesma que dois anos antes havia conquistado o hexacampeonato europeu. Contava com os experientes Dida e Cafu, um fortíssimo sistema defensivo liderado pelo ídolo Paolo Maldini e com Nesta e Stam, um meio-campo que dispensa qualquer comentário, com Gattuso, Pirlo, Seedorf e o menino Kaká, em franca ascensão como craque do time, e a forte dupla de ataque formada por Crespo e Shevchenko.

O Liverpool, apesar da enorme tradição no continente, era azarão. Antes da competição, não era candidato ao troféu nem mesmo entre os outros times ingleses. Os títulos mais recentes e expressivos do clube eram a Copa da UEFA, em 2001, e a Copa da Liga Inglesa, em 2003. De todo modo, contava com uma apaixonada torcida e uma camisa pesada. Além disso, começava a montar um interessante esquadrão sob a batuta do ótimo Rafael Benítez, técnico que chegava com o peso do título espanhol e da Copa da UEFA pelo Valencia, na temporada anterior. Era uma equipe, em sua maioria, que já jogava junto havia algum tempo. Além de Gerrard, ídolo dos Reds, Dudek, Carragher, Hyppia, Traoré, Riise e Milan Baros vestiam a camisa vermelha havia, pelo menos, dois anos. Da Espanha, Rafa Benítez trouxe o jovem Luís Garcia do Barcelona e o ainda pouco conhecido Xabi Alonso do Real Sociedad, além de Cissé, jovem promessa francesa.

A campanha de ambos foi consistente, mas reforçou-se ainda mais o favoritismo do Milan para a final. O Liverpool vinha da preliminar eliminando o pequeno Grazer, da Áustria, e classificou-se em segundo em um grupo de contendores de médio porte: Monaco, que era vice-campeão europeu, Olympiacos e La Coruña. O Milan classificou-se em primeiro em grupo mais desequilibrado: o forte Barcelona de Ronaldinho, o Celtic e o Shakhtar Donetsk.

Nas oitavas, medição de forças equivalentes: Milan passou pelo Manchester United com duas vitórias pelo placar mínimo, enquanto o Liverpool passou pelo Bayer Leverkusen, com dois 3 a 1. Nas quartas, Liverpool passou pela Juventus com uma vitória em casa e um empate fora. E o Milan eliminou seu maior rival, a Internazionale, depois de vencer o primeiro jogo por 2 a 0 e, vencendo também o segundo, ver a decisão ser encerrada após confusão da torcida nerazzuri no San Siro. Nas semis, o Milan sofreu para eliminar um ótimo PSV, em duelo que se definiu pelo gol fora de casa da equipe italiana. Enquanto que o Liverpool teve que roer o duríssimo osso do Chelsea de Mourinho e Abramovich, que acabara de levantar o troféu da Premier League depois de 50 anos. Após empate sem gols em Stamford Bridge, o Liverpool conseguiu um suado gol em Anfield e garantiu-se na final.

Não há roteiro imaginado capaz de igualar o quê de fato ocorreu naquele 25 de maio, na capital turca: ali se encontravam duas das camisas mais pesadas do continente. O Milan abriu o placar logo no primeiro minuto de jogo, em cobrança de falta de Pirlo nos pés de Maldini. Supostamente, ali começou a dissolver o sonho do pentacampeonato europeu dos Reds. No fim do primeiro tempo, já aos 39, uma linda triangulação entre Kaká, Shev e Crespo resultou no gol do argentino. Não satisfeito, Crespo alargou a vantagem milanista antes do intervalo após magistral passe de Kaká e um toque sutil e elegante na pelota.

O futebol é traiçoeiro. Há no jogo elementos que somos incapazes de captar racionalmente.

Com 3 a 0, pelo time que o Milan tinha e pelo andamento da partida, era de se esperar que a taça já tivesse dono. Mas o futebol… ah, o futebol! Quem gosta e conhece sabe que tudo pode. Tanto pode como pôde!

O Liverpool voltou de cabeça erguida e, aos 9 minutos, o capitão Gerrard, de cabeça, tratou de injetar o ânimo necessário para o resto do segundo tempo. A pergunta é: estivesse menor a vantagem, teria uma zaga com Maldini e Nesta sido tão conivente com a presença de um inglês no meio da grande área?          Dois minutos depois, com nada menos que oito milanistas à sua frente, Smicer tentou o chute e reduziu a diferença. O embate agora era, também, psicológico! Mais quatro minutos e Gattuso cometeu pênalti, convertido por Xabi Alonso (como estava pequeno o nível de emoção, Dida chegou a defender a cobrança, mas Alonso insistiu no rebote e fez!).

Aí está: em 15 minutos o Liverpool fez o que o Milan havia feito em 45.

Na prorrogação, Dudek fez milagre duplo em cabeceio e rebote de Shevchenko. O que indicava, claramente, para que lado a sorte estava soprando.

Ao final, nos pênaltis, o goleiro polonês garantiu o título do Liverpool, defendendo as cobranças de Pirlo e Shevchenko, fechando uma maravilhosa história de crença e superação (o brasileiro Serginho isolou o primeiro tiro). Privilegiados os que puderam assistir a esse milagre!

Dois anos depois, Milan e Liverpool repetiram o confronto: dessa vez, sem tanta emoção e sem trégua milanista.

Mas essa história fica pra outro dia… Porque todo dia é histórico.

* Felipe Figueiredo Mello teve um 2005 mais feliz que o torcedor dos Reds.

Resumo da final de 2005:

+MAIS:

Wikipedia

uefa.com

mundodeportivo.com

bleachrreport.com

theguardian.com

dailymail.co.uk

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