Show da NME reúne nata do rock britânico em Londres

Há 50 anos… dia 11 de abril de 1965.

Show da NME reúne nata do rock britânico em Wembley

O dia em que os Beatles não fecharam o show 

POR WALTERSON SARDENBERG Sº* 

Desde que estouraram em 1963, os Beatles sempre foram a atração principal dos shows. Cabia a eles fechar todo e qualquer espetáculo. Mas houve uma exceção. Uma apenas. Ela ocorreu no Empire Pool de Wembley, em 11 de abril de 1965, em Londres. Naquele dia, há exatos 50 anos, os Fab Four não fecharam o show. Esta honraria ficou para outra banda britânica, The Kinks. Um privilégio e tanto, claro.

Os Kinks haviam lançado o seu álbum de estreia no ano anterior, com o sucesso “You Really Got Me”, escrito pelo líder da banda, Ray Davies, e por muitos considerado um precursor do heavy metal em virtude de seu riff agressivo. O segundo álbum, Kinks-Size, saíra treze dias antes do show e levaria às paradas pelo menos dois clássicos, também assinados por Ray: “Tired of Waiting for You” e “All Day and All of the Night”. Mas não foi por causa do seu súbito sucesso que os Kinks fecharam o espetáculo organizado pelo tabloide inglês New Musical Express para premiar os músicos britânicos escolhidos como os melhores de 1964 pelos leitores. Nada disso.

Na realidade, os Kinks chegaram atrasados a Wembley, vindos de um show em Copenhague, na Dinamarca. Chega a ser irônico, portanto, que terminem o espetáculo cantando “Tired of Waiting for You” (“Cansado de Esperar por Você”) — antes desta canção, entoam “You Really Got Me”. Os Beatles, por sua vez, tinham pressa. Naquela mesma noite, iriam se apresentar no programa de TV Eamonn Andrew’s Show. Por isso, cederam aos Kinks o privilégio de fechar o espetáculo.

E que espetáculo! Por sorte, a TV inglesa gravou. O show foi um autêntico “quem é quem” do rock britânico — ainda que faltem o The Who, os Yardbirds, os Troggs, os Hollies e poucos outros. (o primeiro disco do Spencer Davis Group só chegaria às lojas em julho. O do Small Faces, no ano seguinte.) Pensando bem, é o melhor elenco jamais formado. E o ingresso custava apenas £ 1,15!

Os Rolling Stones cantam três números. Os Animals, idem. O Them, do vocalista Van Morrison, ataca com dois. O mesmo acontece com Donovan, para alguns, “o Dylan britânico” — a rigor, uma forçação de barra.

O concerto ainda reuniu, entre outros, os Moddy Blues (cantando “Bo Didley” e ainda longe de flertar com o rock progressivo), George Flame and the Blue Fames, os caretinhas do Herman’s Hermits, os Searchers (o Creedence Clearwater deve ter ouvido muito esta banda) e Dusty Springfield, uma tremenda cantora, espécie de avó sonora de Amy Winehouse.

Os Beatles aparecem com terninhos ao estilo Mao Tse-Tung. Basta que o público perceba a troca da bateria, que traz o nome do grupo no bumbo, para começar a gritaria, ainda antes da entrada do conjunto (como se diz à época) no palco. Eis o único momento de histeria coletiva do show.

O primeiro número é “I Feel Fine”, com Lennon ao violão. Seguem-se “She’s a Woman”, “Baby’s in Black”, “Ticket to Ride” (do álbum Help, que sairia em agosto) e “Long Tall Sally” (com Paul McCartney homenageando Little Richard). Repare no vídeo: quem entrega o prêmio aos quatro cabeludos é o cantor Tony Bennett.Visto meio século depois, o show deixa uma certeza: todos os cantores e grupos que se apresentaram ainda pagavam um tributo imenso ao blues, ao rythm’n’blues e ao rock’n’roll americano. Só mais tarde encontrariam o seu próprio estilo. Isso vale até para os Stones, que cantam somente uma canção de própria autoria. Já os Beatles estavam pra lá de prontos. Sua música tinha uma tremenda identidade. Sua presença de palco transbordava confiança. Ainda em 1965, os Fab Four dariam um passo adiante, com o maravilhoso álbum Rubber Soul.

Outra coisa que faz pensar: como é que apenas quatro anos e quatro meses depois todos os grupos haviam trocado os terninhos por roupas coloridas e os solos de guitarra contidos por longas inserções? Sem contar os temas das canções, a mis-en-scene e o volume.

Por fim, resta admitir que os Kinks estavam mesmo cansados. Fizeram uma de suas menos inspiradas apresentações. Chega a doer nos ouvidos o quanto o baixista Peter Quaife (morto em 2010) desafina no vocal de apoio. Mas o pior de tudo mesmo é Jimmy Saville, o apresentador loirinho, metido a brincalhão e excêntrico. Ele morreu em 2011, aos 84 anos, enobrecido pelo titulo de “Sir”. Um ano após sua morte, começaram a vir à tona centenas de acusações de que teria abusado sexualmente de menores.

* Walterson Sardenberg Sº é jornalista. Nasceu numa data muito especial: 6 de julho de 1957. O dia em que John Lennon e Paul McCartney se conheceram.

O show, na íntegra:

+MAIS:

– nme.com

– beatlesbible.com

– oocities.org

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