Morre o músico americano Curtis Mayfield

Há 15 anos… dia 26 de dezembro de 1999.

Morre o músico americano Curtis Mayfield

POR DANIEL SETTI*

James Brown, Stevie Wonder, Marvin Gaye, Isaac Hayes, Sly Stone, George Clinton. A safra de gênios que revolucionou conteúdo e forma da música negra americana na virada da década de 1960 para a de 1970, felizmente, é de uma fartura irrepetível. E embora possa não ter experimentado o mesmo sucesso comercial ou o reconhecimento destes seis notáveis, Curtis Mayfield, que morreu há 15 anos, em 26 de dezembro de 1999, era um ilustríssimo e peculiar membro do clube.

Sua estética tabelava com a dos contemporâneos, por abraçar a virilidade do funk (Brown), os experimentos de estúdio (Wonder), o uso elegantíssimo da voz (Gaye), os arranjos orquestrados (Hayes), grooves imaginativos (Stone) e cartelas de psicodelia (Clinton). Também como os colegas, Curtis tomou as rédeas da carreira assim que pôde, se livrando da agenda corporativa das gravadoras, criando selo próprio (Curtom) e correndo o risco de ditar as próprias diretrizes artísticas e profissionais.

Outro hábito em comum com aquela turma de ouro era a louvação do orgulho negro nas letras. Só que, quando James Brown pegou este bonde em 1968, com “Say it Loud – I’m Black and I’m Proud”, Curtis já acumulava meia década embalando protestos pelos direitos civis, com “People Get Ready”, “Keep on Pushing” e outras composições messiânicas que concebera para seu primeiro e mítico grupo, The Impressions. E quando, por fim, estreou em carreira solo, com Curtis (1970), foi novamente precursor ao dirigir a lupa lírica para outra faceta da realidade negra americana: a precariedade dos guetos metropolitanos acossados pelas drogas, a pobreza e o crime, meditando sobre a relação entre isso e o ativismo Black Power.

No mais, Curtis criou um mundo à parte, identificável ao soar de um simples compasso. Na mesma estrofe de uma canção sua podem se aglutinar, com magnetismo único, percussão caribenha e guitarras wah-wah, arpas celestiais e linhas de baixo saturado, firulas lisérgicas analógicas e vocais em falsete inigualável. A voz de anjo deste homem de rosto rechonchudo e óculos de professor universitário, aliás, é um capítulo à parte, conferindo um cavalheirismo doce a tudo por ele proferido. Codificadas pelo timbre Curtis, frases duras como “irmão, você sabe que está errado / pense em todas as lágrimas e temores /que você leva ao pessoal de casa” (“Eddie You Should Know Better”, do irretocável Superfly, de 1972) soam como o mais bem dado dos tapas com luva de pelica. E ganham um ar solene, de alguém pacífico, mas convicto, amplificado via (oni)presença das cordas do parceiro Johnny Pate. Sim, porque no DNA mayfieldiano também está o uso pouco comum deste artifício orquestral. Agrupados e entrecortados em riffs, como se fosse um só instrumento, violoncelos, violinos e violas “dialogam” com outros elementos do arranjo, em vez de simplesmente figurarem ao fundo, encorpando o resultado final.

Nascido no dia 3 de junho de 1942, em Chicago, Curtis Lee Mayfield já cantava em coros gospel antes mesmo de saber escrever. Na adolescência, conheceu o cantor e compositor Jerry Butler, futura figura de peso dos estúdios, que o chamou para tocar guitarra em sua banda, The Roosters, e com quem formou, em 1957, The Impressions. O trio – completo com outro cantor, Fred Cash – fazia uma mescla de rhythm and blues, doo wop e gospel, e emplacou alguns hits compostos por Mayfield na parada de R&B. Chegaram a ser homenageados por Bob Dylan, que na capa de seu revolucionário LP Bringing It All Back Home (1965) segurava uma cópia de “Keep on Pushing”, disco que lançaram no ano anterior. Ainda neste período, quando artistas pop ainda eram obedientes funcionários das gravadoras, Curtis já editava e produzia o próprio material e compunha para outros cantores.

Encorajado por uma sólida autoconfiança e o espírito do-it-yourself antes que o mesmo fosse assim chamado, viveu seu auge criativo na década seguinte, emplacando uma trinca de álbuns espetaculares em dois anos, Curtis, Roots e Superfly. Este último é um raro caso de trilha sonora que transcendeu o próprio filme para o qual foi encomendada. Produção típica da era blaxploitation – que, em suas nuances mais caricatas, serviria de inspiração tanto ao clipe “Sabotage”, dos Beastie Boys, quanto para o nosso “Hermes & Renato” – , “Super Fly” estava fadada a ser mais uma historieta de detetives cafajestes e proxenetas estilosos das quebradas americanas, não fosse a música que soa ao fundo. Esperto e oportunista, Curtis aproveitou o cenário “vida loka” da trama para, ao invés de rasgar seda para os bandidos, acionar um alerta sobre os males daquele universo. Com sua fineza costumeira, ele mostrava que sabia do que estava falando, mas sem soar demasiadamente paternalista (“se você que ser um junkie, ok/ Mas lembre-se que Freddie está morto”, cantava em “Freddie’s Dead”).

Superfly era tão bom que foi difícil para o seu próprio autor desvencilhar-se de seu legado posteriormente. O que não significou que o restante da década não rendesse mais uma série de discos, alguns bem acima da média, como Got to Find a Way (1974). A baixada de ritmo nos anos 1980 foi, como para os demais companheiros de geração, inevitável, e Curtis só voltaria a ser notícia com grande destaque por uma razão tenebrosa: em 14 de agosto de 1990 uma torre de iluminação caiu sobre o cantor durante um show em Nova York, deixando-o tetraplégico. A partir de então, as dificuldades físicas o afastariam da vida artística, mas ele ainda teve forças para gravar, muito custosamente – cantando frase por frase -, o álbum New World Order (1995). Enfrentou outra barra pesadíssima ao ter metade da perna direita amputada, em 1998, em decorrência de diabetes, mesma doença que o levaria no final do ano seguinte.

* O jornalista, músico e DJ paulistano Daniel Setti tem 36 anos e mora em Barcelona desde 2006. Publicou 100 listas musicais pitorescas no blog http://lavemomaladalista.blogspot.com.br, tem mais 82 inéditas prontas e outras 456 em construção.

Curtis Mayfield canta “Pusherman” no filme “Super Fly”:

+MAIS:

– Wikipedia

– allmusic.com

– rollingstone.com

– biography.com

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