O famigerado debate Collor x Lula

Dia 14 de dezembro.

O famigerado debate Collor x Lula

“A eleição foi decidida na última semana. Uma semana em que a imprensa esteve envolvida nos fatos principais. Na segunda-feira Collor foi entrevistado no Programa Ferreira Neto. Na terça, Miriam Cordeiro atacou Lula no horário gratuito do PRN e Maria Helena Amaral disse que ela foi paga ao JB e à Folha. Na quarta, o PRN repetiu o depoimento de Miriam, Lula apareceu ao lado de sua filha Lurian no horário do PT e Plínio de Arruda Sampaio falou no programa de Ferreira Neto. Na quinta-feira, as quatro grandes redes transmitiram o debate entre Collor e Lula. Na sexta, o Jornal Nacional deu 1m12 a mais para Collor no seu resumo do debate. No sábado, veio a público o sequestro de Abílio Diniz, junto com insinuações no rádio de que petistas teriam participado dele.

Lula começou a semana com 43% das preferências, estava com 46% no dia do debate e foi escolhido por 44% dos votantes. Collor tinha 46% das intenções de voto na segunda-feira, manteve-se nesse patamar até a noite do debate e subiu para 50% nas urnas. É difícil medir o impacto das denúncias de Miriam sobre o eleitorado, já que Lula manteve sua curva ascendente mesmo depois delas. Mas talvez seja razoável supor que elas possam ter contribuído para diminuir o ritmo do crescimento. E é certo que o depoimento da ex-namorada abalou emocionalmente o candidato do PT, segundo os que estiveram ao seu lado naquela semana, e o prejudicou no último debate.”

Em Notícias do Planalto, Mario Sergio Conti nos oferece não somente uma radiografia do comportamento da grande imprensa do Brasil durante as eleições de 1989 e também no fugaz governo de Fernando Collor. Ele também refaz a história dos principais meios de comunicação e perfila vários dos mais renomados jornalistas do País.

Os trechos acima dão uma ideia de como a imprensa foi decisiva no pleito de 1989. E o quanto o chamado quarto poder tem força – e poder, óbvio! – para escrever a História como lhe convém. É assim desde o dia em que Gutemberg inventou a prensa. Será assim até o dia em que existir jornalismo.

Até hoje, apesar do mea culpa, nem a própria Globo admite que a famosa edição do JN tenha decidido a eleição a favor de Collor. A julgar pelos frios números que Conti apresenta no livro (acima), pode-se afirmar que o debate e a edição influenciaram fortemente o eleitorado. Lula estava em ascensão, Collor estava estagnado. Possivelmente, chegariam empatados tecnicamente para a votação do dia 17. O debate (e a edição!) mudou tudo.

Sem rodeios, a grande verdade é que a edição do JN foi a bala de prata de Lula. O golpe de misericórdia. Sim, o petista sabia que tinha sido pior no debate. “Nos fodemos, perdemos a eleição” foi o que Lula disse, segundos após o debate do dia 14, ao amigo e então assessor de imprensa Ricardo Kotscho, coordenador da Rede Povo, o canal de TV da Frente Brasil Popular.

A percepção geral, de imprensa, eleitorado e candidatos, portanto, era de que Collor se saíra melhor. Não há dúvida disso. Mas não se sabia o quanto isso influenciaria nas urnas, já que o último encontro entre os presidenciáveis, apesar da enorme audiência, não tinha provocado suspiro ou reações mais acaloradas. A ponto de a Folha, por exemplo, o classificar como “morno”. Bem, o caldo entornou com a ajuda da Globo. Anabolizado pelo JN, o debate ganhou relevo, barulho e acabou decidindo em favor do candidato do PRN.

Depois daquele debate (e daquela edição!), tudo mudou na cobertura da imprensa nas eleições no Brasil. No entanto, ainda há, em muitos momentos, arroubos irresponsáveis da velha imprensa tupiniquim. Como vimos nas últimas eleições, aliás.

O debate Collor x Lula na íntegra:

Fontes:

– Acervo Folha

– Wikipédia

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