“Um Tira da Pesada” estreia nos cinemas americanos

Há 30 anos… dia 5 de dezembro de 1984.

'"Um Tira da Pesada" estreia nos cinemas americanos

A Má Educação de “Um Tira da Pesada”

POR DENIS NIELSEN*

Como um bom roteirista, eu vou usar o aniversário de 30 anos do lançamento do filme “Um Tira da Pesada” para falar sobre mim mesmo.

Tendo nascido em 1981 e estudado em colégio Waldorf, onde a lenda dizia que ver televisão era “falta de educação”, eu não me lembro da primeira vez em que assisti ao filme, mas lembro bem de umas trinta e tantas vezes em que o revi durante aquelas nostálgicas tardes pós-colégio, em que a Sessão da Tarde da Globo adiava o dever de casa. Eu era um “mal educado”.

O Eddie Murphy estava no auge e filmes como “48 Horas”, “O Rapto do Menino Dourado”, “Trocando as Bolas” e “Um Príncipe em Nova York” foram tão responsáveis pela minha formação quanto as intermináveis aulas sobre o Egito ou Roma. Mas, ao contrário de outros exemplos de “aulas”, como “Máquina Mortífera”, os filmes do Eddie Murphy simbolizam a união entre “gêneros” do cinema de uma das formas mais orgânicas de que me lembro. Em especial “Um Tira da Pesada”.

É uma comédia, mas é também um filme policial, onde o caso e os riscos são sérios. O personagem é extremamente engraçado, mas ainda assim, sua motivação é triste e pesada – afinal, mataram um grande amigo seu na sua própria casa. Ele é um fanfarrão e um mentiroso, mas é, acima de tudo, um policial, e essa sua forma desvairada de conduzir as investigações acabam seduzindo até os mais certinhos, como o sargento Taggart – o qual eu gostava de comparar ao meu irmão, não pela semelhança física, mas pela atitude regrada.

Em suma, “Um Tira da Pesada” é um dos primeiros filmes legais de que tenho memória. E o mais interessante dele é que, ao contrário de alguns outros exemplos possíveis da época, continua sendo legal até hoje. Não é à toa que, assim como uma aula memorável de um bom professor, ainda me serve de referência.

Ainda lembro claramente de andar pela casa junto do meu irmão repetindo as frases dubladas do encontro entre Axel Fowley e o curador de arte francês Serge, que recrimina a blusa aberta de seu assistente: “Fecha isso. Que horror. Não é sexy, é animalesco!”; ou das observações de caráter extremamente pessoal que o detetive Rosewood fazia para o parceiro Taggart durante uma tocaia noturna: “Eu notei que você anda tomado muito café, ultimamente…” E acho que isso, mesmo sem saber, acabou me ensinando algumas lições profissionais, que ainda tento seguir hoje. Está tudo na importância do detalhe.

Como roteirista, às vezes tendo a pensar muito no macro e nem tanto no micro. Sinto que estou dando muita importância à estrutura e à sequência das cenas, e pouca às cenas em si e à diversão que se pode ter dentro de um núcleo dramático menor, desvinculado, por um momento que seja, do todo. Valor de produção é geralmente visto como piruetas acrobáticas visuais – como, por exemplo, a presença de helicópteros, ou dinossauros robóticos… – e não como a riqueza do detalhe na construção de um personagem que não faz parte necessariamente da trama maior. (Não à toa que o personagem Serge retornou para uma cena – ainda mais desvinculada da trama – na terceira sequência da franquia, que infelizmente é apenas triste e meio chata).

Pensar e tentar aplicar essas “lições” 30 anos após o lançamento do filme, e à luz de uma iminente quarta sequência prevista para 2016, é se deixar educar pela “falta de educação” do cinema e da televisão. E ter isso como base para “educar” as próximas gerações da Sessão da Tarde, sejam elas interpretadas pelo Eddie Murphy, ou pela Tatá Werneck, é nosso papel, sejamos roteiristas, professores, pais ou crianças adiando o dever de casa para ver TV.

* Denis Nielsen tem 33 anos, é roteirista, surfista amador e músico frustrado. Mas tem saúde e é isso o que importa.

Três dublagens diferentes do encontro entre Axel e Serge:

+MAIS:

Wikipédia

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