O homem da Praça da Paz Celestial

Há 25 anos… dia 5 de junho de 1989.

O homem da Praça da Paz Celestial

POR NETA MELLO*

Uma das cenas mais emblemáticas do século XX está no inconsciente coletivo de parte da humanidade.

Ocorreu em Pequim, em 5 junho de 1989, na Avenida da Paz Eterna. Um nome tão controverso quanto o palco das manifestações estudantis que haviam começado em abril do mesmo ano, a Praça da Paz Celestial ou Tiananmen.

Milhares de estudantes reivindicavam participação política, a não interferência do Estado em assuntos acadêmicos, fim da corrupção no governo e liberdade de expressão.

Um enorme grupo acampou na praça e teve apoio da população. A cada dia se juntavam aos estudantes, intelectuais, professores, operários, trabalhadores do campo. Chegavam em caminhões, ônibus e bicicletas. Cantavam, erguiam cartazes contra a repressão. Uma luta pacífica.

Pela primeira vez desde 1949, com Mao Tse Tung, as pessoas se exprimiam contra a opressão.

Ergueram na praça uma estátua em gesso inspirada na estátua da Liberdade de Nova York. Havia um espírito de solidariedade. O povo de Pequim levava comida e água para os acampados. Todos esperavam que o governo cedesse aos pedidos populares.

Não foi o que aconteceu.

O governo chinês liderado por Deng Xiaoping, secretário do Partido Comunista que deveria apoiar o povo por ser um governo do povo, decidiu usar a força para dissolver as manifestações. Calou a boca dos milhares de chineses que participavam ou apoiavam a causa.

No dia 3 de junho, o Exército Popular de Libertação, reforçado por tropas vindas do norte do país e centenas de tanques de guerra, deu início ao que ficou conhecido como Massacre da Praça da Paz Celestial. Tanques passaram por cima de milhares de pessoas. Muitos líderes estudantis foram presos e desapareceram.

O que muita gente não sabe é que em maio, enquanto a Praça Tiananmen já estava ocupada pelos estudantes, a China recebeu uma visita oficial do líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev que promovia grandes reformas nos países soviéticos.

Durante a visita, o governo chinês fez de tudo para esconder as manifestações da comitiva soviética. Gorbachev deixou de visitar a praça e a famosa Cidade Proibida. A comitiva foi acompanhada por centenas de jornalistas do mundo inteiro que, para cobrir as manifestações, ficaram em Pequim após a partida do líder soviético.

Puseram a boca no trombone. O mundo inteiro, menos os chineses, acompanharam pela TV e jornais a cobertura do horror nas ruas da capital.

Estima-se que entre 1.000 e 10.000 manifestantes tenham sido mortos. Apenas números.

Pode ter sido muito mais.

No dia seguinte ao massacre, os tanques continuavam a expulsar os manifestantes que permaneciam na praça.

Na Avenida da Paz Eterna, um homem desafiou uma fileira de tanques. Carregando uma sacola em cada mão, elevou-as para o alto e se postou na frente de um tanque. Um homem desarmado que o mundo inteiro acompanhou atônito. Continuava a gesticular para o motorista do tanque, que tentou desviar, mas foi seguido pelo homem.

Inflexível. É claro que alguém dentro do veículo tinha ordem para passar por cima de quem quer que fosse.

Não teve coragem? Tentou se colocar no lugar do manifestante? Nunca teremos as respostas.

Depois de subir no tanque e tentar conversar com o motorista, o homem desceu e novamente se postou na avenida, com a fileira de ferro à sua frente. Dois homens aparecem correndo e retiram o manifestante dali. Os tanques seguiram. O mundo não acreditava no que via.

Há muitas controvérsias sobre o paradeiro desse homem solitário. O herói da praça da Paz Celestial, conhecido como “Tank Man”. Alguns afirmam que foi preso e morto pelo exército chinês. Outros dizem que fugiu. Ninguém sabe seu nome, quantos anos tinha em 1989.

O grande fascínio da História é que ela pode ser modificada por novos relatos, novos documentos. O 25º aniversário do massacre é um tabu no país.

A China se transformou num império “capitalista”. Rico. Com trabalho quase escravo. Sem liberdade. Com censura.

Mas essa história fica pra outro dia… Porque todo dia é histórico.

* Neta Mello, 59 anos, é historiadora e escritora. Tem quatro livros publicados e escreve no Blog da Neta.

Veja o homem da Praça da Paz Celestial:

Fontes:

jblog.com.br

qz.com

nydailynews.com

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Um comentário sobre “O homem da Praça da Paz Celestial

  1. Lindo relato, muito atual. Muita gente não sabe, mas o comunismo é responsável pela morte de 155 milhões de pessoas em 100 anos. As duas guerras mundiais mataram cerca de 98 milhões. O Estado sempre é composto por pessoas, que são falhas e imperfeitas e que nunca devem ter o poder de subjugar os indivíduos de seu próprio país. Ditadura é muito ruim, quer seja de direita ou de esquerda.

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