Rolling Stones lançam o álbum de estreia

Há 50 anos… dia 16 de abril de 1964.

Rolling Stones lançam o álbum de estreia

 POR MARIO J. SILVA*

Era primavera no hemisfério Norte. A estação que anuncia a renovação da vida apresentou ao mundo um disco, com apenas uma foto de cinco rapazes na capa, que mudaria a história de vida de algumas gerações. O dia era 16 de abril de 1964. Exatos cinquenta anos atrás…

Corte. 1980. Um garoto de treze anos, ainda com os joelhos ralados nas brincadeiras de rua com os amigos, magro, cheio de espinhas e com o ouvido criado ao som de Elvis Presley, Beatles, Chuck Berry, Mutantes, Made in Brazil, Roberto Carlos e mais um punhado de ícones, já conhecia a frase ‘isso é apenas rock’n’roll, mas eu gosto’. Ainda não havia associado a frase aos seus criadores . Os vizinhos? Bem, os vizinhos podiam não saber da frase, mas conheciam muito bem o barulho que uma boa vitrola, com suas ‘poderosas’ caixas de som da época, abastecida por discos e discos do bom e velho rock’n’roll, produzia. E o garoto seguia sua vida, como se todo rock’n’roll da história estivesse apenas ali, naqueles discos herdados da mãe e dos tios. Um dia aconteceu a visita que mudou seus conceitos, pensamentos e visão da sociedade.

Era costume os tios passarem por sua casa sem prévio aviso. Um deles sempre trazia as novas aquisições em discos de 12 polegadas, os hoje românticos LPs. Naquela tarde especifica, depois de ouvirem juntos um tanto de Raul Seixas, Luiz Gonzaga e Bob Dylan, o tio fala:

– Agora você vai ouvir a maior banda de rock da história.

Intrigado, antes de colocar a agulha pra deslizar, notou que na capa não estava escrito Beatles. Questionou fortemente como era possível essa heresia vinda de alguém a quem confiava tanto seu gosto musical e resolveu não ouvir. O tio riu e decidiu deixar o LP lá para, quem sabe, dar a oportunidade ao jovem sobrinho deixar de ser tão cabeça dura e conseguir ouvir sua oferta sonora.

Uma semana depois. Cidade litorânea, calor modorrento no retorno da escola. Pouca disposição de encarar a rua e seu ar sufocante, ele empurrou o sofá para o lado, garantindo espaço necessário para evitar o máximo de acidentes domésticos com enorme potencial de causar problemas mais tarde com o pai que chegaria do trabalho, e foi dançar ao som dos seus ídolos, que se revezavam na vitrola. Horas de alegria e suor, a coleção acabou. Só restava um disco. Reticente e emburrado, decidiu ter uma chance de provar, ainda que sozinho, que o tio falava besteira ao tratar qualquer coisa como melhor que os Beatles, maior que os Beatles, mais revolucionário que os Beatles. Foi ouvir o LP da discórdia. E a agulha começou seu passeio entre sulcos carregados de estática transformada em música.

16 de abril de 1964. Cinco rapazes, com idades entre 17 e 22 anos, aparecem em uma foto de capa, sem nenhuma palavra, anunciando apenas com suas feições de poucos amigos o disco que iniciava a outra grande revolução do rock’n’roll britânico. Do mais puro blues norte americano ao rock’n’roll sincopado de Chuck Berry, esses garotos foram uma pedrada sonora nos ouvidos conservadores de seu tempo. As pedras começavam a rolar. Era a primeira cena de um filme que ainda não acabou.

De volta àquela tarde sufocante, um primeiro acorde derruba todas as barreiras voluntariamente impostas por um garoto de treze anos. Numa sequência de atitudes rebeldes e de pureza juvenil, disfarçadas de simples bateria, baixo, guitarra, guitarra e vocal gutural, os Rolling Stones se apresentam com a força de uma explosão atômica para esse garoto aqui, hoje com seus bons quarenta e seis anos. Foi o começo de tudo, o começo de minha vida mais adulta, sacana e questionadora. O disco do tio? Bem, aquele disco está até hoje comigo. Meu tio nunca mais o viu. O nome? It’s only rock’n’roll!

16 de abril de 1964. O dia que mudou minha vida antes mesmo de eu nascer. E as pedras continuarão a rolar enquanto eu viver.

* Mario J. Silva, quarenta e seis anos de Rolling Stones, três casamentos, dois filhos, um monte de perguntas, poucas respostas. Gestor cultural, militante de direitos civis e chato. Trabalhou com muita gente boa, e com muitos maus também. Os Stones sempre estiveram por perto como seu refúgio contra os maus. Ainda bem!

Ouça “Route 66”, que abre o primeiro álbum dos Stones, direto do vinil!: 

+MAIS:

rollingstones.com

Wikipedia

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