Mercado financeiro vive “sexta-feira sangrenta”

Há 5 anos… dia 24 de outubro de 2008.

24out13

POR ARTHUR MELLO*

Dia da Marmota. Era assim que aquele 24 de outubro se desenhava. Desde a quebra do Lehman Brothers, meus dias e noites pareciam os mesmos. Acordava para ver como os mercados da Ásia se comportavam (mal, na verdade!) e já tentava imaginar o que eu deveria fazer no dia seguinte para poder viver e lutar mais um dia. As bolsas de Tóquio, China e Coreia caiam 10% e, pela manhã, o banho de sangue se estendia para Europa e Estados Unidos.

Os brasileiros certamente estão acostumados a ouvir um presidente falando em cadeia nacional sobre crises econômicas e planos mirabolantes. Sarney, Collor, Itamar, FHC e Lula… Todos, sem exceção, já brindaram nossos lares com algum discurso com o objetivo de acalmar o povo.

Um mês antes desse 24 de outubro de 2008, Bush filho falava para o povo americano. Não era um anúncio de guerra ou combate ao terror, mas sim uma prestação de contas ao contribuinte americano. Naquele momento, a poupança do cidadão comum era responsável diretamente pela continuação ou não do sistema bancário mundial.

Tinha 27 anos nessa época e me vi, de repente, participando da maior crise da história do mercado financeiro. O colapso do centenário Lehman Brothers um mês antes desencadeou uma crise de confiança sem precedentes. O sistema interbancário entrou em colapso e parecia ser questão de tempo para que outros bancos e empresas fossem sugados para dentro do furacão.

Passava os dias da crise esperando a noticia da próxima empresa quebrando ou me preparando para um novo circuit breaker da bolsa. No dia 24 de outubro, a Bovespa acumulava uma queda de mais de 50% de seu patamar mais alto e caminhávamos para o pior ano da história do índice.

Na bolsa de Chicago, existe um índice que, de modo bastante simples, traduz o grau de incerteza que os participantes enxergam para os próximos 30 dias. Nessa sexta-feira, 24, o VIX atingia sua máxima histórica, 89%. Isso significava que o mercado acreditava que, ao menos pelos próximos 30 dias, as variações diárias do índice S&P 500 teriam uma magnitude de 6%, para cima ou para baixo.

Colocando em perspectiva, esse índice historicamente gira em torno de 18%, o que se traduz em variações que não passam de 1,5%.

Medo é a palavra para descrever minhas voltas solitárias para casa. Subia a Bela Cintra a pé e as sextas eram os piores dias. Não sabia se o meu trabalho existiria na segunda-feira de manhã. O dia 24 me marcou, pois no dia anterior a Vale anunciou um lucro recorde à época. As ações caíram 5%. Petrobras foi pior, 10% de queda.

Os anos passaram e li muitos livros a respeito de todas as histórias da crise. A negligência dos bancos e das agências de risco. A ganância das pessoas, a ignorância dos líderes. O que mais me marcou, no entanto, foi assistir o segundo “Wall Street”. Apesar de não ser, nem de perto, o melhor filme do genial Oliver Stone (meu preferido é “Um Domingo Qualquer”), foi na sala de cinema do shopping Villa-Lobos que pude, finalmente, relaxar e chorei um pouquinho.

Nos meses de setembro e outubro de 2008, eu acordava todo dia pronto para a guerra (tinha que ter uma guerra, afinal, são os americanos) e nunca me permiti nenhum momento de fraqueza. Precisei de um filme para perceber que eu tinha sobrevivido àqueles dias loucos e acho que dava pra escrever uma história por dia ao longo de 45 dias.

A verdade é que esses 60 dias foram fundamentais para minha vida profissional. Eu tinha passado já na prova mais difícil.

* Arthur Mello é um curioso. Engenheiro que trabalha no mercado financeiro por acaso. Viajante que adora livros e, acima de tudo, apaixonado pelas histórias que as pessoas têm para contar. Essa é a minha vida, isso é um pouco da minha história.

Veja o discurso de George W. Bush, em 24 de setembro de 2008:

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