Obdulio Varela, 100 anos

20 de setembro de 1917

Obdulio

“Eu era menino e peladeiro, e como todos os uruguaios estava grudado no rádio, escutando a final da Copa do Mundo. Quando a voz de Carlos Solé transmitiu a triste notícia do gol brasileiro, minha alma caiu no chão. Recorri então ao mais poderoso de meus amigos. Prometi a Deus uma quantidade de sacrifícios, se Ele aparecesse no Maracanã e virasse o jogo.

Nunca consegui recordar as muitas coisas que prometi, e por isso nunca pude cumpri-las. Além disso, a vitória do Uruguai diante da maior multidão jamais reunida numa partida de futebol tinha sido sem dúvida um milagre, mas o milagre foi acima de tudo obra de um mortal de carne e osso chamado Obdulio Varela. Obdulio tinha esfriado a partida, quando a avalanche nos caía em cima, e depois carregou toda a equipe nos ombros e com pura coragem impeliu-a contra ventos e marés.

No final daquela jornada, os jornalistas acossaram o herói. E ele não bateu no peito proclamando somos os melhores e que não há quem possa com a garra nacional:

– Foi casualidade – murmurou Obdulio, abanando a cabeça. E quando quiseram fotografá-lo, virou de costas.

Passou aquela noite bebendo cerveja, de bar em bar, abraçado aos vencidos, nos balcões do Rio de Janeiro. Os brasileiros choravam. Ninguém o reconheceu. No dia seguinte, fugiu da multidão que o esperava no aeroporto de Montevidéu, onde seu nome brilhava num enorme letreiro luminoso. No meio da euforia, escapuliu disfarçado de Humphrey Bogart, com um chapéu metido até o nariz e um impermeável de gola levantada.

Em recompensa pela façanha, os dirigentes do futebol uruguaio deram a si mesmos medalhas de ouro. Aos jogadores, deram medalhas de prata e algum dinheiro. O prêmio que Obdulio recebeu deu para comprar um Ford modelo 31, que foi roubado naquela mesma semana.”

Eduardo Galeano, em Futebol ao sol e à sombra

Nada a acrescentar sobre o monumental Obdulio Jacinto Muiños Varela, El Negro Jefe.

Um Deus de carne e osso, operário e maestro do milagre do Maracanazo.

Um Deus vivo.

Há quem garanta vê-lo a flanar por sua simpática Montevidéu. No porto, nos cafés, nos bares, a mirar o vasto horizonte do “mar” platense, a guardar, como um santo, as entranhas de concreto do mítico Centenário.

Obdulio vive.

É daquelas divindades eternas da festa pagã chamada futebol.

Obdulio, por Eduardo Galeano:

Fontes e +MAIS:

– Wikipedia (espanhol)

– Wikipedia (inglês)

– Wikipédia

– trivela.uol.com.br

– imortaisdofutebol.com

– blogdojuca.uol.com.br

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