Brasil é campeão da Copa América

Há 20 anos… dia 29 de junho de 1997.

Quando todos tivemos de engolir

POR RAUL ANDREUCCI*

Um cara que é pura emoção, vibra de verdade, deixando o sangue pulsar sem freios, permitindo-se o descabelo nos erros, curtindo o sofrimento das palpitações, puxando de lá de dentro os urros de velho lobo a cada gol, gozando aliviado. Esse cara, bem, esse cara sofre como um cidadão em sua primeira montanha russa a cada partida de futebol. É assim para Mário Jorge Lobo Zagallo, ou só Zagallo, como é conhecido, principalmente quando se trata, como gosta de dizer, da amarelinha, a seleção brasileira de futebol.

O ápice dessa sua relação, dessa paixão maluca e, olha, até doentia, ao menos na cabeça de um jornalista e torcedor como eu, na casa dos 30, que viu seus principais momentos no escrete canarinho como auxiliar do título da Copa do Mundo de 1994 com as frases folclóricas, e a teimosia no trajeto até a edição seguinte do torneio, o vice de 1998, foi, sem dúvida, a polêmica frase após o título da Copa América de 1997, em 29 de junho daquele, há exatas duas décadas: “Vocês vão ter que me engolir!”.

Para gerações mais novas do que a minha e até para as que estão por vir a curtir futebol e a história da seleção brasileira, pode parecer uma bravata, ainda mais num título em cima da Bolívia. Essa sentença é, porém, um retrato do torneio para Zagallo e seu time, uma luta contra as próprias dificuldades, custosas de aceitar com tanto talento à disposição.

É, também, o resumo de um embate que se arrastaria (ainda) até a França. Uma contenda sobre ideias de futebol (treino, organização tática e mesmo relacionamento com os jogadores) ultrapassadas, sobre a pressão pelo aproveitamento máximo de craques (consagrados, como Romário, ou em ascensão na Europa, como Ronaldo e Djalminha, e quebrando tudo por nossas bandas, casos de Edmundo no Vasco e Denílson no São Paulo) e sobre uma evidente falta de capacidade, por essas e outras circunstâncias, de acertar um time que jogasse coletivamente, como equipe, de fato. Os especialistas arrancavam os cabelos ao ver o desperdício e pareciam não suportar o ar de superioridade do tetracampeão mundial (duas como jogador, em 1958 e 1962, uma como técnico, em 1970, e a última como auxiliar, em 1994), que, ao menos da boca pra fora, mostrava convicção no jeitinho que lhe rendeu tantas glórias.

Era tudo isso o que Zagallo queria ver seus principais críticos, provavelmente na sua cabeça, seus perseguidores, oposicionistas e inimigos do País, bem ao estilo “Ame-o ou deixe-o”, lamentavelmente patético e um dos símbolos dos anos de chumbo, engolissem: o valor de se manter a tradição de uma escola de futebol, de empregar a experiência dos patriotas vitoriosos e o respeito a esses pontos, como se fossem instituições, numa ideia impraticável de que os jornalistas tratassem a seleção e seus protagonistas como intocáveis.

A câmera fecha no Velho Lobo e ouve seu comentário sobre a conquista, decorrente dos 3 a 1 sobre a Bolívia, naquela altitude de La Paz (cerca de 3.600 metros acima do nível do mar), num jogo em que o intervalo apontava para 1 a 1, Ronaldo só nos colocara à frente aos 33 minutos do segundo tempo e Zé Roberto garantira os números finais nos acréscimos:

“Foi sensacional. Uma vitória lutada, uma vitória no sangue, na raça, na vontade, daquele que ama o Brasil, não daqueles que repudiam”. Percebe? Virou algo pessoal. Daquele que ama o Brasil, ou seja, ele, Zagallo. Não daqueles que repudiam, seus detratores. Quem, hein? Ele prossegue, o cinegrafista, malandro, fechando ainda mais em seu semblante, agora, alterado de vez, aos berros: “Vocês sabem quem são. Não preciso dizer mais nada, vocês vão ter que me engolir!”. Com dedo em riste, apontando para a tela, como se ameaçasse, aí, a todos os torcedores minimamente críticos – digamos que todos com capacidade visual. Já que, cá entre nós, vai, quem não queria sua cabeça naquele momento?

A Copa América de 1997 poderia ter sido, como foi, a primeira conquistada fora de casa, a quinta das nossas oito taças desse torneio. Afinal, preocupados com as eliminatórias para a Copa do Mundo de 1998, muitos países nem levaram seus principais jogadores, como Argentina e Chile. Mas a Copa América de 1997 poderia ter sido, também, a consagração de um conjunto, o ensaio para algo maior dali a um ano. Não foi, porque, mesmo contra adversários fracos, como a Costa Rica, goleada por 5 a 0 na estreia, tomamos sustos. Contra os poucos que tinham algumas de suas estrelas, como o México, que abriu dois gols e tomou a virada, e o Paraguai, de sólida defesa, contamos, vamos ser francos, com uma base mínima de estrutura tática e lampejos individuais de gênios.

A Copa América de 1997 poderia ainda, ter sido só a primeira amostra da dupla Ro-Ro, Romário e Ronaldo, um ataque pra lá de letal, que sofreu com um técnico que pegava no pé do primeiro, a quem tinha de engolir, como a um sapo, e os rolos da transferência do Fenômeno do Barcelona, da Espanha, para a Inter de Milão, da Itália.

A Copa América, por que não, poderia ter sido aquela em que a torcida abraça o time depois de um trauma, como o fiasco da Olimpíada de 1996, quando o ouro ainda era uma obsessão com cara de maldição, mas virou o time de um cara por quem era difícil torcer e de quem se esperava, no mínimo, o espetáculo digno de quem comanda gente de outro mundo e não deve atrapalhar.

Infelizmente, essa é uma daquelas efemérides em que, se as coisas tivessem corrido de outra maneira, poderia ser muito mais comemorada, lembrada com mais carinho e até reverenciada. Ficou para História simbolizada como uma polêmica desnecessária, que tumultuou ainda mais um trabalho questionável, amparado em lances mágicos de craques; virou sinônimo de desperdício de talento, uma triste crônica de tudo o que poderíamos ter sido em 1998 e tivemos de esperar mais quatro anos, quando chegou o penta, no Japão e na Coreia do Sul.

Como brincaram os piadistas do programa de YouTube “Falha de Cobertura”, Zagallo demostrou ter fôlego para dar chilique na altitude. Só rindo para não chorar, porque já engolimos tudo isso e não deu pra digerir legal.

* Raul Andreucci, 31 anos, acredita ser mais jornalista do que nunca. Dedicado a projetos pessoais e ao Mestrado em Ciências Sociais na PUC-SP, se sente honrado sempre que convidado contribuir com esse espaço.

O desabafo:

Melhores momentos e gols da final:

A campanha:

Fontes e +MAIS:

– Wikipedia

– memoriaglobo.globo.com

– futpedia.globo.com

– cbf.com.br

– alambrado.net

– futebolnostalgico.blogspot.com.br

– linhaalta.com.br

– esporte.uol.com.br

 

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