O primeiro gol de Rogério Ceni

Há 20 anos… dia 15 de fevereiro de 1997.

O primeiro gol de Rogério Ceni

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POR FELIPE FIGUEIREDO MELLO*

Com a devida vênia, empresto Drummond falando de Pelé, e adapto para Rogério Ceni:

O difícil, o extraordinário, não é fazer cem gols, como Rogério Ceni. É fazer um gol como Rogério Ceni.

Eu iria começar o texto sobre a efeméride de hoje tentando separar a porção artilheira de Ceni do resto de sua carreira de goleiro.

Seria um erro!

A porção artilheira do goleiro é tão indissociável do restante de sua carreira quanto ele próprio é do São Paulo.

Ademais, o que há de impressionante e histórico em sua marca tem tudo a ver com o fato de ser um goleiro. E o triste argumento de quem distorce sua marca – como batedor de faltas e pênaltis, não se aproxima dos grandes da história – é justamente a dissociação, como que para tornar normal e corriqueiro o que é anormal, mitológico.

Já no fim de sua carreira, passada a inesquecível marca dos cem gols, me pegava admirado com a coragem de ser quem ele é. De ter ousado fazer o que poucos faziam e levar a um patamar provavelmente inatingível.

Hoje nós o vemos ali na área técnica e pensamos na coragem de assumir o posto de técnico do clube onde viveu uma vida e escreveu sua história. Ocorre que ser técnico do clube do coração, ídolo da torcida, é algo tão comum, tão corriqueiro no Brasil e no mundo, que a gente vê que isso não é um ato desbravador.

É preciso, sim, muita coragem! Mas Rogério Ceni percorre uma trilha já batida: Émerson Leão, Paulo César Carpegiani, Renato Gaúcho, Adílson Batista, Nelsinho Baptista, Paulo Roberto Falcão, Dunga e, é claro, seus mestres Muricy e Telê, além de muitos outros, penduraram as chuteiras e luvas e adotaram a prancheta.

Alguns deles tão ídolos para seus clubes quanto Rogério para o São Paulo.

A dura caminhada mesmo, aquela de romper paradigmas, começou ainda em 1996, antes mesmo do gol que hoje completa 20 anos.

Uma das principais características – talvez até a principal – de Rogério Ceni é uma força interna sobrenatural.

Costumo dizer que não é craque inato. É craque construído, lapidado desde os primeiros passos no futebol em Sinop.

Conta a história que, quando chegou ao São Paulo, mostrava potencial para goleiro, mas tinha muitas deficiências. Valdir Joaquim de Moraes, seu primeiro treinador no Tricolor, dizia que ele batia muito mal na bola, que tinha uma reposição fraca.

E ali ele começou a caminhar: todo dia chegando um pouco mais cedo e indo embora um pouco mais tarde dos treinos.

Não foi da noite pro dia que começou a bater faltas.

Tampouco foi da noite pro dia que começou a acertá-las.

Puxar aquela barreira de madeira em formato de jogadores era um passatempo, mas havia ali a centelha do desafio, o prazer de se superar sempre.

Naquele começo de 1997, quando foi finalmente recompensado pela paciência e humildade de ser reserva imediato de Zetti por quase quatro anos, Ceni começou a tornar o passatempo de bater falta em algo sério. Ali residia o gosto pela repetição que seu Mestre Telê lhe havia ensinado.

Foram seis meses cobrando cerca de 100 faltas por dia.

E como competência e sorte andam lado a lado, quis o destino que seu técnico naquele começo de temporada fosse, justamente, discípulo de Telê e igualmente obsessivo pelo treino e pela repetição.

Muricy percebeu a qualidade no jovem goleiro e, como não havia nenhum jogador de linha competente e determinado a melhorar seus próprios atributos, não hesitou em escolher o camisa 1 como batedor oficial.

Em 15 de fevereiro de 1997, no segundo jogo do São Paulo pelo Campeonato Paulista, contra o União São João de Araras, Ceni cruzou o campo e escreveu a primeira de mais de uma centena de páginas de sua história como goleiro. A falta cobrada no canto esquerdo de Adinam fez o jovem goleiro explodir de alegria.

Era uma marca histórica, como escreveu Alberto Helena Júnior em coluna na Folha, dois dias depois. O próprio Helena vaticinou: “Pelo visto, esse menino vai se tornar um dos maiores ídolos da história do Tricolor.”

Muricy, que o acompanhava de perto, também previu: “Ele pode se tornar um dos principais artilheiros do time.”

Portanto, caro leitor, hoje é dia de celebrar uma das marcas mais importantes do futebol brasileiro!

Um goleiro que bate faltas, que faz gols, é tão incomum que mesmo hoje, com um terreno plenamente desbravado, com o desenvolvimento nos treinamentos de goleiros a fim de que melhorem a batida na bola, não há goleiros no mundo com a regularidade de Ceni.

Não há, em nenhum dos principais clubes do planeta, um goleiro como batedor de faltas.

Portanto: o difícil, o extraordinário, é fazer um gol como Rogério Ceni.

* Só Felipe Figueiredo Mello e milhões de tricolores têm Rogério Ceni.

O gol, com narração de Luiz Alfredo:

Rogério relembra o gol, na SPFCTV:

+MAIS:

– saopaulofc.net

– espn.uol.com.br

– gazetaesportiva.com

– Acervo Folha

– Acervo Estadão

– Wikipédia

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