Morre o ex-deputado Marcio Moreira Alves

Há 5 anos… dia 3 de abril de 2009.

3abr14

“Seria necessário que cada pai, cada mãe, se compenetrasse de que a presença dos seus filhos nesse desfile é o auxílio aos carrascos que os espancam e os metralham nas ruas. Portanto, que cada um boicote esse desfile. […] Esse boicote pode passar também, sempre falando às mulheres, às moças. Aquelas que dançam com cadetes e namoram jovens oficiais. Seria preciso fazer hoje, no Brasil, que as mulheres de 1968 repetissem as paulistas da Guerra dos Emboabas e recusassem a entrada à porta de sua casa àqueles que vilipendiam-nas. Recusassem aceitar aqueles que silenciam e, portanto, se acumpliciam.”

Esse é um trecho do famoso discurso do então deputado federal pelo MDB, Marcio Moreira Alves. Em 2 de setembro de 1968, em repúdio à invasão da Universidade de Brasília (UnB) e ao fechamento da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), três dias antes, Alves subiu à tribuna da Câmara para propor um “boicote ao militarismo”. Pediu que a população não participasse dos desfiles de 7 de setembro e ainda que as mulheres, digamos, repelissem o contato com soldados.

Como se nota, a despeito de algumas expressões fortes, como “carrascos” e “metralham”, o teor do texto é quase infantil.

“Noutras circunstâncias, e num regime civil, a reação ao discurso de protesto de Marcio Moreira Alves na Câmara dos Deputados talvez até se dissipasse em risotas”, escreveu Aldo Pereira na Folha, por ocasião da morte do ex-deputado, há exatos 5 anos.

De fato, hoje em dia é só ligar na TV Câmara ou TV Senado para se deparar com palavrórios risíveis.

Mas vivíamos a ditadura, às portas de seu pior período. Então, os militares ficaram loucos, consideraram o discurso hostil “aos brios e à dignidade das Forças Armadas” e pediram a cassação do mandato de Alves. Na votação, o plenário da Câmara votou contrariamente à cassação, com diferença de 75 votos (216 a 141).

“Pode ser a gota d’água…” 

Em 13 de dezembro, Costa e Silva decretava o Ato Institucional número 5: recesso do Congresso, suspensão de direitos políticos de todo e qualquer cidadão por, no mínimo, dez anos, confisco de bens considerados ilícitos, suspensão do habeas-corpus.

No dia anterior, o próprio deputado se defendeu e também foi defendido pelo colega de partido Mário Covas. Em vão.

Marcio Moreira Alves entrou na História como o pivô do AI-5.

“Na verdade o discurso de Marcio Moreira Alves foi apenas um pretexto, já que as medidas trazidas pelo ato eram as mesmas defendidas pelos militares desde julho”, escreveu o site do ex-deputado, na ocasião de sua morte.

Filho de político – o ex-prefeito de Petrópolis Marcio Honorato Moreira Alves -, Marcio foi eleito em 1966 e, depois do golpe dentro do golpe, se exilou no Chile, retornando ao Brasil com a Anistia, em 1979. Como jornalista, teve passagens por Correio da Manhã, O Globo, Estadão, TV Manchete. Cobriu, entre outras coisas, a Guerra de Suez, entre Inglaterra e Egito, em 1956.

Marcio Moreira Alves morreu por falência múltipla dos órgãos, aos 72 anos. Seis meses antes, em outubro de 2008, havia sofrido um AVC, o que o levou a ser internado no Hospital Samaritano, no Rio, local onde faleceu.

Veja reconstituição do discurso de Marcio Moreira Alves, do documentário “AI-05 – O dia que não existiu”, do jornalista Paulo Markun:

Fontes:

Acervo Folha

Acervo Estadão

g1.globo.com

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