Rivarola, 50 anos

30 de abril de 1965

Rivarola, 50 anos

POR PEDRO DE LUNA*

Tenho lembranças cristalinas de Catalino Rivarola como exemplar do que Vanderlei Luxemburgo classifica como “zagueiro-zagueiro”. Um atleta sem requintes técnicos, fiel executor do básico, dedicado, bom pelo alto, mas cintura dura, terrivelmente lento e com dois (ou três) dedinhos assim de violência.

Surgiu na base do Cerro Porteño, do Paraguai, em 1985, aos 20 anos, e lá permaneceu até 1991. Em 87, sagrou-se campeão paraguaio, o que o levou à seleção na temporada seguinte. Disputou as Copas Américas de 89 e 91 por seu país, sem maior destaque.

Ainda foi campeão paraguaio mais uma vez pelo Ciclón, em 90, antes de ser contratado pelo modesto Talleres de Córdoba, na Argentina. Em solo argentino, o já experiente Catalino se firmou. Não conquistou taças, mas fez quatro temporadas em bom nível e seguiu sendo chamado para o selecionado de seu país. Até que em 1995, prestes a completar 30 anos, sua vida mudou.

O Grêmio de Luiz Felipe Scolari precisava de um zagueiro para compor o banco de reservas. A dupla composta por Paulão e Agnaldo Liz, campeã da Copa do Brasil de 94, havia sido negociada com Benfica e Flamengo, respectivamente. O experiente Adilson Batista tinha chegado sob desconfiança para formar dupla com o já não mais tão piá Luciano, esperança da torcida e da diretoria. Rivarola era, a priori, o estepe do novo par de xerifes tricolores que disputaria a Libertadores de 95.

Porém, com seu futebol viril e sério, nas oportunidades recebidas no Gauchão (carinhosamente chamado pelos torcedores de “Ruralito”), o paraguaio surrupiou a vaga de Luciano, e formou um ótimo contraponto para o estilo mais técnico e leve de Adilson, o “Capitão América”. E, após ser campeão estadual disputando o Gre-nal final com o time misto, o Grêmio foi avançando na Libertadores, deixando pelo caminho equipes como o poderoso Palmeiras, da Era Parmalat, o Emelec, o El Nacional e o Olímpia, antigo rival de Rivarola em Assunção. Na final, como nenhum tricolor esquece, o Nacional de Medellín, de Higuita e Aristizábal, não foi páreo para o time de Felipão. A América era azul, branca e preta pela segunda vez.

Pouco antes, na final da Copa do Brasil, o Grêmio perdeu a chance de ser bicampeão seguido, em casa, contra o Corinthians, em lance originado por passe errado do zagueiro paraguaio e finalizado por Marcelinho Carioca. Ao lembrar disso, julguei justo perguntar a um amigo tricolor fanático, o planner Marcio Marinho, 28, se há alguma espécie de mácula na história de Rivarola. “De forma alguma. Ao perder a Copa do Brasil, todo gremista teve a certeza de que venceríamos a Libertadores”, garante.

No fim do ano, o Grêmio encarou no Mundial o poderosíssimo Ajax, treinado por Louis Van Gaal, que reunia um esquadrão com nomes como Van der Sar, os irmãos De Boer, Davids, Kluivert, Overmars e Litmanen. Os gremistas, tidos como azarões, foram heroicos ao segurarem o 0x0 mesmo jogando com um homem a menos desde os 11 do segundo tempo, quando Rivarola entrou no meio da canela de Kluivert e foi mandado para o chuveiro mais cedo. Perguntado sobre isso, Marcio Marinho diz: “Com 11 contra 11, mandávamos no jogo. Se eu perdoo o Rivarola? Claro que sim. A expulsão foi totalmente injusta – não foi nem sequer falta – e ele é um mito”. O fato é que nas penalidades máximas, o sonho do bimundial gremista foi adiado.

Em muitos clubes, esse cartão vermelho representaria a crucificação e o fim da linha para um jogador, mas não no Grêmio. Rivarola permaneceu e foi peça fundamental dos títulos gaúcho e brasileiro de 96, da Recopa do mesmo ano e da Copa do Brasil de 97, faturada em pleno Maracanã contra o Flamengo de Romário e Sávio. Em 98, aos 33 anos, a idade começou a pesar e Catalino perdeu a vaga no time titular para Scheidt e Jorginho, irmão de Junior Baiano.

Na Copa do Mundo de 98, a defesa do Paraguai encantou o mundo ao fazer um grande torneio e ser eliminada apenas no gol de ouro pelos anfitriões franceses, nas oitavas de final. No marcante 3-5-2 de Paulo Cesar Carpegiani, no entanto, Rivarola era reserva do trio formado por Pedro Sarabia, Celso Ayala e Carlos Gamarra e acabou não entrando em campo nem um minuto sequer.

Em 99, Felipão o levou para o Palmeiras, junto de outros escudeiros dos tempos da Azenha, como Arce, Arílson e Paulo Nunes. O tempo, porém, cobrou seu preço para o já decadente zagueiro paraguaio, que disputou apenas 16 partidas ao longo do ano, sendo banco de Roque Junior, Junior Baiano e Cléber. No meio da Libertadores – que o Palmeiras venceria – Rivarola, subaproveitado, deu lugar na lista de inscritos ao atacante Edmílson.

Em 2000, Rivarola teve brevíssima passagem pelo América-RJ, sem deixar saudades, e em seguida se aposentou atuando pelo Libertad, de seu país natal. Hoje, a lenda gremista leva uma vida discreta como seu futebol em Ciudad del Este e é dono de uma frota de ônibus. Mas certamente deve pensar no que teria acontecido se não tivesse dado aquele carrinho no atacante holandês.

* Pedro De Luna, 26, é publicitário e teve parte do seu (mau) caráter futebolístico formado assistindo o Grêmio de 1995.

Zagueiro-zagueiro!:

Reportagem com Rivarola e Rincón, de 1996:

Fontes:

Wikipedia

– futebolbagual.blogspot.com.br

terceirotempo.bol.uol.com.br

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