O Maradona Árabe

Dia 29 de junho

O Maradona Árabe

POR RAUL ANDREUCCI*

O jogo está pra começar e você ainda está no ritual xixi, cerveja, sofá, olho na escalação e árbitro filho da puta (pra não perder o costume!). Não tem lá muito problema quando se trata de um Bélgica X Arábia Saudita.

A descarga da privada encobre o anúncio do time. Mas, mesmo se ouvisse, a bem da verdade, jamais reconheceria a pronúncia de Al Owairan. Conhece mesmo o Wilmots. A caminho da geladeira, espia o uniforme vermelho dos belgas, sensação daquela Copa do Mundo de 1994, favoritos para confirmar a liderança da chave.

A troca de passes na esquerda do ataque reforça seu prognóstico de quem mandaria na partida. Por dentro, ri maroto. Aquele bolão da firma, com o palpite de 1 a 0, repetindo os triunfos anteriores, contra Marrocos e Holanda, estava no papo.

Enquanto procura a mais gelada, vem o berro. Você desiste do preciosismo, abre a latinha que está na mão e pula na almofada. Se alguém filmasse do lado de dentro da TV bunduda, captaria sua cara de espanto.

Você só tem tempo de ver um monte de homens de camisa branca e calção verde se amontoando, a festa de uma torcida (também) perplexa. O replay pisca e você faz força para manter as pálpebras abertas.

Com cinco minutos de bola rolando, a Arábia Saudita, estreante na competição, abria o placar no Robert F. Kennedy Stadium, em Washington, capital dos Estados Unidos. A troca de passes da esquerda a caminho da direita dá mais errado do que qualquer um poderia imaginar. A zaga árabe corta em forma de assistência.

O tal Al Owairan recebe na metade do campo de defesa e dispara. O primeiro marcador desaba ao tentar o desarme, justo quando recebia ajuda do segundo. O terceiro é cortado, cai no chão. Sem saber pra que lado ir, o quarto vê o camisa 10 passar e, meio sem jeito, em queda até, arrematar para o fundo das redes. Tudo muito rápido.

O gol mais bonito de 1994, segundo a revista Four Four Two, e um dos mais incríveis de todos os tempos. Do Maradona Árabe, quem diria.

No mesmo 29 de junho, 20 anos depois, você revê e ainda não acredita. Em dia de Costa Rica X Grécia, melhor acelerar o ritual e não depender do replay. A história pode aparecer quando você menos espera.

* Raul Andreucci, 29 anos, agora aluno de yoga e respirando bem fundo, acredita que é jornalista e tem garantias legais da PUC-SP de ser Mestrando em Ciências Sociais. Já escreveu muito (e continua adorando escrever) sobre futebol. Nem por isso deixa de arriscar outros temas. Adora contar histórias e sabe que podem brotar de qualquer lugar. Quando dá, inventa projetos para se coçar. Sabe que algum ainda vai vingar. Muito bem casado, bom dizer, antes que mandem propostas indecentes, aguarda críticas, desde que mediante o pagamento de (várias) cerveja (s).

O gol de Al Owairan:

Fontes:

– fifa.com

– Wikipedia

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