Federação Brasileira de Sports, 100 anos

8 de junho de 1914

Federação Brasileira de Sports, 100 anos

POR RAUL ANDREUCCI*

Num momento em que tanto se briga por transparência e cada vez mais se valoriza o resgate da História, como pode o futebol brasileiro ter origem e passado tão negligenciados?

Pois é assim que a banda toca. Em seu site oficial, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), entidade máxima do esporte bretão no País, não dispõe de qualquer seção fixa que aborde sua criação e desenvolvimento ao longo dos anos – e, o que dirá, retrospecto e conquistas da seleção.

Só o acaso mesmo para ajudar no resgate da memória, que mais do que futebolística, é cultural, política e social. Graças a uma pesquisa acadêmica, encontrei no Estatuto da CBF (que, aliás, também deveria estar disponível no site oficial e não está), a data de sua fundação. Na página 6, define a CBF como: “Entidade sucessora, por transformação em entidade especializada, da Confederação Brasileira de Desportos, fundada em 8 de junho de 1914, com a denominação de Federação Brasileira de Sports”.

Ou seja, há exatos 100 anos, um século, dava-se um passo importante na organização do futebol brasileiro justamente com a criação da Federação Brasileira de Sports (FBS), antecessora da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e, portanto, pode-se dizer, o embrião na nossa amada CBF.

A trajetória aqui detalhada só é possível graças ao livro “A regra do jogo: uma história institucional da CBF”, de 2006, de Carlos Eduardo Sarmento, publicado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV). Com “financiamento e apoio institucional” da CBF, vale registrar, como aparece logo na página 3.

O crédito precisa ser dado, afinal contar essa história não é algo simples. A FBS surgiu como uma tentativa carioca, mais precisamente da federação local, a Liga Metropolitana de Esportes Atléticos (LMEA), de tomar as rédeas da coordenação não só do futebol, mas do esporte nacional. A meta mais imediata era uma unidade legítima para formar e enviar uma delegação brasileira à Olimpíada de Berlim, em 1916.

A LMEA aproveitou-se do racha na Liga Paulista de Futebol (LPF) e convidou os dissidentes da Associação Paulista dos Esportes Atléticos (APEA) para a formação da FBS. Como a própria APEA buscava reconhecimento, e nisso a LMEA podia ajudar por estar na capital federal e pelo contato com políticos, inclusive esportivos, de todo o País, e compartilhavam de ideais parecidos, um deles a democratização das competições, abolindo de vez seleções elitistas dos clubes competidores, o casamento deu certo.

Na reunião do dia 8 de junho de 1914, além de cariocas e paulistas, estavam na sede da Federação Brasileira das Sociedades de Remo, no Rio de Janeiro, os representantes do Automóvel Clube Brasileiro, da Comissão Central de Concursos Hípicos, do Clube Ginástico Português, do Iate Clube Brasileiro e do Aeroclube Brasileiro. E, na falta de uma, criaram-se logo duas entidades: o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), que cuidaria de questões relativas à equipe olímpica, e a FBS, responsável pela organização do esporte e suas respectivas competições – e o que mais nos interessa, o embrião da CBF.

A LPF não deixou barato. Com o apoio de paranaenses e gaúchos, criou a sua versão nove meses depois: a Federação Brasileira de Futebol (FBF). Em seguida, apressou-se para pedir apoio das representantes argentinas e uruguaias, com quem já mantinha relações por ser a entidade futebolística brasileira mais antiga, desde 1901, e solicitou seu ingresso na Federação Internacional de Futebol (Fifa).

Ao perceber que perdia terreno, a FBS correu para aprovar seu estatuto, “só” 17 meses depois de fundada, no fim de 1915. Repetiu os rivais e fez o pedido para a Fifa. Em meio à Primeira Guerra Mundial, a entidade máxima do futebol tinha mais com que se preocupar. Tomou uma postura diplomática e avisou: resolvam entre vocês e voltem mais tarde. O impasse terminou apenas em junho de 1916, quando o então Ministro das Relações Exteriores reuniu FBS, FBF, LPF, APEA e LMEA (pode voltar para rever o significado das siglas, tá?) e, após horas de debate, acertou a extinção de FBS e FBF para a criação da CBD.

A nova entidade, no entanto, vinha com cara de FBS. Até a escolha da diretoria, o representante legal foi Álvaro Zamith, ex-FBS, listado, inclusive, como primeiro presidente da CBD-CBF no livro de Sarmento. O próprio Estatuto da CBF ignora a FBF, numa deliberada edição da história, puxando sardinha para os cariocas. Não que tenha mudado muita coisa em cem anos, mas é bom saber como tudo começou e, quem, sabe, ajude a entender por que vivemos a situação atual – ainda hoje, de confusão e descaso.

A foto do post é do primeiro jogo da história da seleção brasileira, em julho de 1914.

Mas essa história fica pra outro dia… Porque todo dia é histórico.

* Raul Andreucci, 29 e já na crise dos 30, acredita que é jornalista e tem garantias legais da PUC-SP de ser mestrando em Sociologia. Já escreveu muito (e continua adorando escrever) sobre futebol. Quando deixam, se arrisca também por outros aí. Principalmente porque adora contar histórias. Com mais dois amigos, tocava o BAIACU por esse mar de informações. Quando pode, inventa mais projetos para se coçar. Casado, bom dizer, antes que mandem propostas indecentes. E atualmente sentindo saudade dos amigos, louco por convites para cerveja e abraços calorosos.

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